IA ameaça mineração de Bitcoin? Analistas contestam
O crescimento acelerado dos data centers de inteligência artificial está ampliando a disputa por eletricidade em diversas regiões. Nesse contexto, voltou ao debate no mercado o possível impacto dessa demanda sobre a mineração de Bitcoin.
Empresas de IA vêm comprando grandes volumes de energia para treinar modelos e operar infraestrutura computacional. Como consequência, passam a competir diretamente com mineradores, que dependem do mesmo recurso para manter suas operações.
Apesar de manchetes alarmistas, diversos analistas afirmam que a ideia de que a inteligência artificial poderia “matar” a mineração ignora a dinâmica econômica do próprio protocolo do Bitcoin.
O debate ganhou força após o cofundador da Crypto Banter, Ran Neuner, comentar o tema na rede social X.
“A IA matou o Bitcoin para sempre. Ela se tornou a maior concorrente da mineração de Bitcoin. Não é outra criptomoeda. É a IA.”
Na publicação, Neuner argumenta que a rentabilidade energética de data centers de IA pode superar a da mineração. Segundo sua estimativa, operações de mineração poderiam gerar algo entre US$ 57 e US$ 129 por megawatt de energia consumido, enquanto aplicações de IA poderiam alcançar entre US$ 200 e US$ 500.
Esse cenário levou algumas empresas do setor a explorar novos modelos de negócios. Entre os exemplos citados no mercado estão acordos para hospedagem de infraestrutura de IA em instalações originalmente voltadas à mineração.
Casos frequentemente mencionados incluem um acordo da Core Scientific para hospedar infraestrutura voltada a inteligência artificial, contratos bilionários envolvendo a Hut 8 e ajustes operacionais anunciados pela Cipher Mining, que indicam possível redirecionamento parcial de capacidade computacional.
Diante disso, surge uma pergunta recorrente: se empresas de IA estiverem dispostas a pagar mais pela eletricidade disponível, qual pode ser o impacto para a mineração?
Economia do protocolo tende a reequilibrar a mineração
Especialistas em análise on-chain discordam da conclusão de que a inteligência artificial poderia inviabilizar a mineração de Bitcoin. Para eles, o próprio funcionamento do protocolo cria mecanismos naturais de adaptação econômica.
O analista Willy Woo argumenta que a segurança da rede está mais ligada ao valor de mercado do Bitcoin e à atividade da rede do que ao custo direto da eletricidade.
“O que a rede Bitcoin está disposta a pagar por sua segurança é definido principalmente pelo preço do BTC e pela utilização do sistema. O custo da eletricidade afeta a competição entre mineradores, mas não determina o nível de segurança da rede.”
Além disso, o protocolo possui um mecanismo automático de ajuste de dificuldade. Esse sistema recalibra a complexidade da mineração sempre que o poder computacional total da rede muda.
Assim, se mineradores menos eficientes deixarem o mercado devido ao aumento do custo energético, a dificuldade tende a cair. Como resultado, os participantes restantes encontram um novo ponto de equilíbrio econômico.
Em outras palavras, a expansão da inteligência artificial pode alterar quem minera ou em quais regiões a atividade ocorre. No entanto, isso não significa necessariamente que a segurança da rede será comprometida.
IA e mineração podem operar de forma complementar
Alguns especialistas avaliam que a relação entre inteligência artificial e mineração pode ser mais complementar do que competitiva. O investidor de capital de risco focado em clima Daniel Batten é um dos defensores dessa visão.
“É preciso cautela com afirmações como ‘a mineração de Bitcoin deixará de ser lucrativa após certo ponto’ ou ‘a IA está matando o Bitcoin’. A realidade do setor energético é muito mais complexa.”
Segundo Batten, operações de mineração podem ajudar a monetizar energia durante a fase de construção de novos data centers. Além disso, podem consumir eletricidade comprada antecipadamente que ainda não está sendo usada pela infraestrutura principal.
Outro fator relevante é a flexibilidade operacional. Mineradores conseguem ajustar rapidamente o consumo energético, o que pode contribuir para equilibrar redes elétricas em momentos de variação de demanda.
Além disso, muitas operações utilizam fontes de energia subaproveitadas, como gás residual, aterros sanitários e excedentes de geração renovável. Em alguns casos, esses recursos podem apresentar custos muito baixos por quilowatt-hora.
Programas de resposta à demanda, créditos de carbono e certificados de energia renovável também influenciam a rentabilidade das operações. Por isso, comparações diretas entre IA e mineração nem sempre capturam toda a complexidade econômica do setor.
Em síntese, a expansão global dos data centers de inteligência artificial tende a aumentar a competição por eletricidade. Ainda assim, os mecanismos econômicos do protocolo do Bitcoin permitem que a rede se ajuste às mudanças no mercado energético.
