IA leva mídia cripto à disputa por dados confiáveis

A inteligência artificial está mudando a economia da informação no mercado cripto. Como resultado, empresas de mídia disputam uma posição mais estratégica: o controle de dados confiáveis de mercado. Em vez de depender apenas de notícias, análises recorrentes e audiência, essas companhias passam a operar como plataformas de dados, analytics e infraestrutura para instituições.

Esse movimento ganhou um marco em 12 de junho. Na data, a Blockworks adquiriu a Messari. A operação uniu duas das maiores estruturas de pesquisa e dados do setor em uma plataforma com cobertura de mais de 40 mil ativos digitais. O negócio superou US$ 10 milhões, valor muito abaixo da avaliação de cerca de US$ 300 milhões atribuída à Messari após sua rodada Series B de 2022.

Além disso, o desconto mostra como o modelo econômico da informação sobre criptomoedas mudou em apenas quatro anos. Em abril, a própria Blockworks levantou recursos com avaliação de US$ 192 milhões. A rodada teve liderança da ParaFi Capital e da Reciprocal Ventures, com participação da Coinbase Ventures. A empresa declarou que usaria esse capital para comprar concorrentes. Jason Yanowitz, cofundador da Blockworks, resumiu a ambição de forma direta: construir a Bloomberg do mercado cripto.

Dados confiáveis viram ativo central

A aquisição da Messari reflete uma transformação que já vinha se formando. Com efeito, o valor da informação financeira começa a sair do artigo e migra para a base que sustenta o artigo. As empresas com maior potencial para dominar os próximos anos tendem a controlar conjuntos de dados canônicos. Isto é, bases tratadas por instituições e máquinas como fonte confiável.

Nesse modelo, a receita vem cada vez mais de feeds, terminais e chamadas de API. Em contrapartida, o leitor comum perde relevância econômica. O foco passa para equipes de compliance, analistas quantitativos e gestores institucionais. Dessa forma, a estrutura de negócio se afasta do modelo clássico de redação.

A pressão sobre a mídia começa pela distribuição. O tráfego que financiou o publishing digital por duas décadas está encolhendo. Segundo o relatório anual de tendências do Reuters Institute, os encaminhamentos do Google para publishers caíram cerca de 33% no mundo no período de um ano até novembro de 2025. Nos Estados Unidos, a queda foi de 38%. Na Europa, recuou 17%. Já os acessos vindos do Google Discover diminuíram 21%.

No início de 2026, cerca de 58% das buscas no Google terminaram sem clique para qualquer site externo. Isso ocorreu porque os resumos gerados por IA passaram a responder às perguntas diretamente na página de resultados. Ao mesmo tempo, a Penske Media processou o Google, alegando que a empresa estaria consumindo o tráfego que antes servia de contrapartida para a indexação do conteúdo jornalístico.

IA pressiona formatos tradicionais da mídia

Para veículos voltados ao mercado de criptomoedas, esse cenário reduz o valor de formatos que sustentaram a audiência por anos. Entre eles estão breaking news e textos explicativos de rotina. Afinal, um resumo sobre desbloqueio de tokens ou divulgação de tesouraria pode surgir em segundos por meio de um chatbot e ser consumido sem clique.

Segundo a análise apresentada, mercados financeiros tendem a seguir uma sequência quando amadurecem. Primeiro vêm reportagem e opinião. Depois surge a demanda por pesquisa. Em seguida, o mercado se padroniza em torno de dados. Por fim, esses dados se tornam infraestrutura essencial.

A Bloomberg alcançou esse estágio há décadas. A empresa fatura em torno de US$ 11 bilhões por ano, cobra perto de US$ 31.980 por terminal em 2026 e mantém mais de 325 mil assinantes conectados ao sistema. Nesse contexto, o jornalismo funciona como complemento. O núcleo do negócio está na informação que alimenta modelos, precificação e compliance.

O mercado cripto pode estar entrando nessa quarta fase. Na visão de Jason Yanowitz, esse avanço pode ocorrer mais rápido do que ocorreu nas ações tradicionais. Isso porque o setor de ativos digitais produz dados estruturados, em tempo real e legíveis por máquina de forma nativa. Esse fluxo aparece tanto on-chain quanto em divulgações padronizadas.

Além disso, a adoção corporativa de IA acelera essa transição. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico indicam avanço de 8,7% em 2023 para 14,2% em 2024 e 20,2% em 2025. Ao mesmo tempo, os agentes que consomem essas informações começam a operar de modo autônomo.

Controle da base define a referência do mercado

Quando um mercado chega a esse estágio, quem controla a camada de referência ganha influência sobre todos os agentes a jusante. Gestores usam esses números para precificar carteiras. Provedores de índice constroem produtos em torno deles. Corretoras os integram aos seus sistemas. Reguladores os citam. Modelos de IA treinam com base neles.

Na prática, uma empresa que detenha o número canônico de oferta circulante de um protocolo ou o tamanho das reservas de uma tesouraria pode influenciar a alocação de bilhões de dólares. Para isso, não precisa publicar opinião explícita. Portanto, os futuros guardiões desse mercado tendem a ser operadores de bases de dados, posicionados acima do editor tradicional na cadeia de valor da informação.

A consolidação já está em curso. Além da compra da Messari pela Blockworks, a Kaiko, com sede em Paris, adquiriu a Amberdata no início de junho. A transação ampliou sua cobertura de derivativos e dados on-chain. Também adicionou ferramentas de pesquisa com foco em IA para bancos, gestoras e fundos multimercado. Em janeiro, a fornecedora de oráculos RedStone comprou a Security Token Market, incluindo uma base com mais de 800 ativos tokenizados.

Informação vira infraestrutura institucional

Em todos esses casos, fontes fragmentadas de informação valiosa passaram para menos mãos. Esse movimento importa mais do que uma consolidação comum de mídia. Afinal, grandes alocadores exigem divulgações padronizadas, séries históricas limpas, mapeamentos de entidades legais, arquivos de governança e métricas de risco defensáveis diante de comitês de compliance.

Custódia, liquidação e negociação já avançaram em institucionalização no setor. Agora, a informação passa pelo mesmo processo. Nesse sentido, a demanda por dados confiáveis cresce junto com a entrada de capital no mercado cripto.

A IA amplia ainda mais essa importância. Em um futuro próximo, um analista dificilmente abrirá manualmente a documentação de um protocolo. Em vez disso, poderá pedir a um modelo que compare todas as redes Layer 1. A consulta pode envolver composição de tesouraria, concentração de validadores, participação em governança e receita. A qualidade da resposta dependerá da base de dados que o modelo considerar confiável.

Isso cria um ponto de estrangulamento estratégico. Quanto mais sistemas dependerem dessa camada, mais valiosa ela se tornará. Ainda assim, a substituição ficará mais difícil. Publicações estabelecidas já sentem essa pressão, mas também carregam um ativo importante: anos de reportagens, metadados estruturados, pesquisas proprietárias e credibilidade editorial.

Por fim, esse acervo pode ser convertido em produtos de inteligência institucional e bases de conhecimento preparadas para IA. Nesse cenário, a posição mais durável para a mídia cripto pode deixar de ser apenas publicar notícias. Ela pode passar a fornecer a camada confiável de informação que a IA consome, sem abrir mão do julgamento editorial que decide o que merece entrar nessa base.