Imposto nos EUA dificulta uso do Bitcoin em pagamentos

O Bitcoin pode ser usado para comprar produtos e pagar serviços. No entanto, a legislação tributária atual dos Estados Unidos transforma praticamente cada pagamento em um evento fiscal que precisa ser registrado.

Pelas regras vigentes, transações com o ativo digital devem ser reportadas ao Internal Revenue Service (IRS), órgão responsável pela arrecadação de impostos no país. Dessa forma, até compras simples podem gerar obrigações fiscais para o usuário.

Na prática, quem utiliza criptomoedas precisa calcular ganhos ou perdas de capital sempre que gasta o ativo. Isso inclui pagamentos cotidianos, como um café ou mantimentos. Assim, a burocracia tende a aumentar e pode desestimular o uso do Bitcoin como meio de pagamento.

Esse contexto ajuda a explicar por que o ativo ainda é frequentemente tratado como reserva de valor ou investimento. Embora a tecnologia permita transferências rápidas, o enquadramento tributário cria um obstáculo relevante para o uso no dia a dia.

Setor defende isenção para pequenas transações

Nos últimos meses, organizações ligadas ao setor de cripto intensificaram a articulação política em Washington. O Bitcoin Policy Institute (BPI) está entre os grupos que defendem mudanças na legislação.

Segundo a entidade, representantes do setor se reuniram com 19 gabinetes do Congresso nos últimos três meses para discutir uma regra de isenção tributária voltada a pequenas transações com criptomoedas.

A proposta, conhecida como regra de minimis, busca dispensar o cálculo de ganho de capital em pagamentos abaixo de determinado valor. Caso aprovada, compras de baixo valor poderiam ficar livres de parte da burocracia fiscal.

Para defensores da medida, a mudança poderia facilitar o uso do Bitcoin em pagamentos cotidianos e estimular a adoção da tecnologia no comércio.

Cronograma de discussão legislativa sobre regra de minimis

Fonte: Bitcoin Policy Institute

De acordo com estimativas apresentadas pelo instituto, o Congresso teria até agosto de 2026 para avançar em mudanças relevantes. Depois disso, as eleições de meio de mandato tendem a dominar o debate político, o que pode reduzir o espaço para reformas tributárias mais amplas.

A senadora Cynthia Lummis, representante do estado de Wyoming, é uma das principais defensoras de ajustes na tributação de criptoativos. Em 2025, ela apresentou um projeto que propõe isenção de impostos para transações de até US$300, com limite anual de US$5.000.

O texto, no entanto, ainda não avançou no Congresso. Além disso, o mandato atual de Lummis termina em janeiro de 2027, o que adiciona incerteza sobre o futuro da pauta caso o projeto não evolua até lá.

Ilustração sobre proposta de isenção para transações com criptomoedas

Fonte: Bitcoin Policy Institute

Projetos diferentes disputam espaço no Congresso

O debate legislativo também ficou mais complexo porque existem propostas com escopos distintos em tramitação. Enquanto o projeto apoiado por Lummis inclui Bitcoin e outras criptomoedas, outra iniciativa tem foco mais restrito.

Na Câmara dos Representantes, os deputados Max Miller e Steven Horsford apresentaram um projeto voltado especificamente para stablecoins atreladas ao dólar. Assim, a proposta não cobre diretamente pagamentos feitos com Bitcoin.

Gráfico do preço do Bitcoin
BTCUSD sendo negociado próximo de US$70.558. Gráfico: TradingView

Mesmo com diferenças entre os textos, há sinais de apoio bipartidário para algum tipo de isenção em transações de pequeno valor. Ainda assim, a existência de propostas paralelas pode tornar o avanço legislativo menos previsível.

Pierre Rochard, membro do conselho da empresa focada em tesouraria de Bitcoin Strive, resume o argumento de parte do setor.

“O principal obstáculo para a adoção de pagamentos com Bitcoin é a política tributária, não a tecnologia de escalabilidade.”

Regime fiscal ainda limita uso cotidiano

Hoje, cada pagamento com criptomoeda exige a comparação entre o preço de aquisição do ativo e seu valor no momento da transação. Assim, o usuário precisa manter registros detalhados de todas as movimentações para fins fiscais.

Esse processo aumenta a complexidade do uso cotidiano e eleva o risco de erros na declaração de impostos. Por consequência, muitos investidores preferem manter os ativos como investimento em vez de utilizá-los em compras.

Defensores da reforma afirmam que já existe precedente na legislação americana. Pequenas transações com moedas estrangeiras contam com isenções semelhantes, o que abre espaço para discussões sobre um tratamento equivalente para criptoativos.

Nos próximos meses, o avanço ou não dessas propostas no Congresso deve indicar se pagamentos com Bitcoin podem se tornar mais simples do ponto de vista tributário nos Estados Unidos.