Irã testa taxas com cripto no Estreito de Hormuz

O Irã avalia a implementação de um sistema formal de cobrança de taxas para embarcações que atravessam o Estreito de Hormuz. Segundo reportagem publicada em 1º de abril, o país já aceita pagamentos em yuan chinês e em criptomoedas, com destaque para stablecoins atreladas a moedas fiduciárias. O movimento sinaliza uma possível mudança na forma como o país administra uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo.

De acordo com o relato, o mecanismo funciona como um pedágio marítimo operado por um intermediário associado ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). Além disso, países recebem uma classificação de “afinidade”, que varia de um a cinco. Essa pontuação, por sua vez, influencia o acesso ao serviço de escolta naval no estreito.

Para obter autorização de passagem, operadores de navios devem enviar documentos detalhados, incluindo registros de propriedade, bandeira, manifesto de carga, destino, lista de tripulação e dados de rastreamento AIS. Em seguida, ocorre uma análise que envolve fatores geopolíticos e de sanções. Como resultado, o IRGC emite um código de liberação via rádio VHF, seguido por escolta naval ao longo do trajeto.

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Proposta indica mudança na estratégia do Irã

O movimento sugere uma tentativa de institucionalizar práticas que antes eram consideradas informais. Conforme a agência Fars, um projeto de lei já foi elaborado e deve passar por revisão legal no parlamento iraniano.

Além disso, o Estreito de Hormuz concentra cerca de 20% do fluxo global de petróleo e gás. Portanto, qualquer alteração em sua dinâmica tende a impactar o comércio internacional. Nesse sentido, a criação de um sistema estruturado reforça a intenção do Irã de monetizar sua posição geográfica.

Ao mesmo tempo, o modelo combina critérios técnicos e políticos. Ou seja, fatores operacionais não são os únicos considerados. Em contrapartida, análises de alinhamento geopolítico também influenciam o acesso ao serviço.

Yuan e stablecoins ganham espaço nas transações

A escolha dos meios de pagamento segue uma lógica estratégica. O uso do yuan permite liquidações fora do sistema financeiro tradicional baseado no dólar. Além disso, stablecoins como USDT e USDC mantêm paridade com moedas fiduciárias, mas operam em redes blockchain, o que reduz a dependência do sistema bancário convencional.

Segundo a Bloomberg, ao menos duas embarcações já realizaram pagamentos em yuan. Os petroleiros tendem a receber prioridade, enquanto as taxas iniciais são estimadas em cerca de US$ 1 por barril transportado. Assim, um navio com capacidade para 2 milhões de barris poderia gerar aproximadamente US$ 2 milhões por travessia.

A preferência por stablecoins, em vez de ativos mais voláteis como Bitcoin ou Ethereum, atende a uma necessidade operacional. Dessa forma, esses ativos reduzem riscos entre a cobrança e a liquidação, funcionando de maneira semelhante a transferências em dólar, porém fora de sistemas tradicionais.

Implicações regulatórias e geopolíticas

O modelo pode representar um desafio para reguladores internacionais. Autoridades como o Office of Foreign Assets Control (OFAC), dos Estados Unidos, buscam limitar o uso de stablecoins em contextos que possam contornar sanções econômicas. Assim, caso o sistema avance, a pressão sobre emissores como Tether e Circle tende a crescer.

Além disso, a combinação de criptomoedas e yuan reforça discussões sobre desdolarização em transações estratégicas. Ainda que o impacto imediato pareça limitado, o cenário sugere possíveis efeitos no longo prazo, especialmente em regiões sob sanções.

Relatos indicam que o processo inclui análise detalhada de dados das embarcações, classificação geopolítica e liberação por código via rádio, seguida de escolta naval. Em outras palavras, trata-se de um sistema que integra logística, segurança e estratégia internacional.

Em suma, a iniciativa aponta para um possível novo modelo de cobrança em rotas marítimas críticas, combinando inovação financeira com interesses geopolíticos.