Itaú e Bradesco aceleram corrida cripto no Brasil

Bancos tradicionais aceleram entrada no mercado cripto brasileiro

O mercado de ativos digitais brasileiro começa a ganhar um novo capítulo com a entrada mais direta dos grandes bancos. Enquanto o Itaú Unibanco avança em projetos de tokenização de títulos e fundos, o Bradesco prepara serviços para compra, venda e custódia de criptomoedas diretamente em seu aplicativo.

Na prática, os movimentos mostram que os bancos tradicionais já não olham para blockchain apenas como uma tecnologia experimental. Agora, eles começam a transformar ativos digitais em produtos e infraestruturas voltados ao mercado financeiro.

Além disso, as estratégias seguem caminhos diferentes. O Itaú concentra esforços na tokenização de ativos tradicionais, enquanto o Bradesco amplia sua atuação para a negociação e a custódia de criptomoedas.

Essa diferença ajuda a entender como o setor financeiro brasileiro está incorporando a tecnologia. De um lado, ativos conhecidos passam a utilizar infraestrutura baseada em blockchain. De outro, criptomoedas entram cada vez mais nos canais tradicionais de investimento.

Itaú aposta na tokenização de títulos e fundos

O Itaú Unibanco iniciou uma parceria com a OpenAssets, empresa especializada em infraestrutura para ativos digitais, dentro de um projeto-piloto conduzido pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA).

A iniciativa vai testar a emissão, negociação e liquidação de títulos de renda fixa e fundos de investimento utilizando tecnologia de registro distribuído, conhecida pela sigla DLT.

Em termos simples, a proposta consiste em representar digitalmente ativos financeiros que já existem no mercado tradicional. Assim, um título ou participação em um fundo pode ganhar uma representação digital registrada em uma infraestrutura baseada em blockchain.

O projeto também pretende avaliar regras e padrões técnicos para permitir que bancos e gestores utilizem esse tipo de estrutura.

A participação do Itaú dá peso adicional ao experimento. O banco já havia participado do projeto-piloto do Drex, conduzido pelo Banco Central em 2023, que testou operações envolvendo dinheiro e ativos tokenizados.

Agora, a instituição amplia essa experiência para um projeto voltado diretamente ao mercado de capitais.

Tokenização deixa de ser apenas experimento

A movimentação do Itaú acontece em um momento de expansão da tokenização no Brasil. O conceito já alcançou crédito, recebíveis, renda fixa e até ativos do agronegócio.

Recentemente, por exemplo, agricultores do Paraná utilizaram a tokenização de vacas leiteiras como garantia para obter financiamento. O caso mostrou que a tecnologia pode representar digitalmente até mesmo ativos físicos e biológicos.

No mercado financeiro, porém, a lógica ganha outra dimensão. A tokenização pode permitir que ativos tradicionais sejam registrados e movimentados em infraestruturas digitais, potencialmente reduzindo etapas operacionais e facilitando processos de negociação e liquidação.

Além disso, o movimento brasileiro acompanha uma tendência internacional. Bancos, gestoras e empresas financeiras de diferentes países estudam a utilização de blockchain para representar títulos, fundos, crédito privado e outros instrumentos.

Por isso, a participação de instituições como o Itaú indica uma possível mudança de fase. O debate começa a sair dos testes isolados e entra na discussão sobre como colocar esses sistemas em operação dentro das regras do mercado financeiro.

Bradesco aproxima criptomoedas do cliente

Enquanto o Itaú avança pela tokenização, o Bradesco prepara uma estratégia mais diretamente ligada às criptomoedas.

O banco vai oferecer compra e venda de criptoativos dentro do próprio aplicativo. A operação começará com uma seleção de dez ativos, incluindo Bitcoin (BTC), Ethereum (ETH) e Solana (SOL). Os outros sete ativos ainda não foram divulgados.

A novidade representa uma mudança importante na atuação da instituição. Até então, o Bradesco vinha concentrando sua estratégia principalmente em infraestrutura, tokenização e custódia de ativos digitais.

Agora, o banco pretende colocar a negociação de criptomoedas dentro de um ambiente que milhões de clientes já utilizam para suas operações financeiras.

Na prática, isso pode reduzir uma das principais barreiras para quem ainda não entrou no mercado cripto: a necessidade de abrir uma conta em uma plataforma especializada para comprar os ativos.

Além disso, o Bradesco confirmou nesta quarta-feira (12) que oferecerá custódia institucional de ativos digitais. A estrutura poderá guardar e administrar criptomoedas, stablecoins e ativos tokenizados.

De acordo com informações da Exame, a Foxbit será o primeiro cliente da nova área.

O serviço, contudo, não ficará restrito às exchanges. Segundo o banco, a estrutura também poderá atender gestores de recursos, fundos de investimento e tesourarias corporativas.

O que significa custódia de criptomoedas?

Para quem não acompanha o mercado, custódia significa, basicamente, a guarda e a administração dos ativos.

No mercado tradicional, bancos e instituições financeiras já exercem esse papel para diferentes tipos de investimentos. No universo cripto, a custódia envolve também a proteção das chaves e da infraestrutura necessária para movimentar os ativos digitais.

Portanto, a entrada de um grande banco nesse segmento pode representar um passo relevante para a adoção institucional.

Ao mesmo tempo, o movimento mostra que a estratégia do Bradesco vai além de simplesmente permitir a compra de Bitcoin. O banco está construindo uma estrutura que envolve negociação, custódia e ativos tokenizados.

Isso aproxima diferentes partes do mercado digital da infraestrutura financeira tradicional.

Bancos começam a disputar espaço na economia digital

Os movimentos de Itaú e Bradesco acontecem em um momento de transformação do mercado financeiro brasileiro. A regulação de ativos digitais avança, enquanto empresas tradicionais ampliam investimentos em blockchain e tokenização.

Nesse cenário, os bancos podem ocupar posições diferentes dentro da nova infraestrutura.

O Itaú, por exemplo, aposta na transformação de ativos tradicionais em representações digitais. Já o Bradesco avança sobre a negociação e a custódia de criptomoedas.

Consequentemente, a fronteira entre o mercado financeiro tradicional e o setor cripto fica cada vez menos definida.

Isso também muda a porta de entrada para o investidor. Até pouco tempo, quem queria comprar criptomoedas normalmente precisava procurar uma exchange especializada. Agora, bancos tradicionais começam a levar esses ativos para plataformas que o público já conhece.

Por outro lado, a expansão institucional não elimina os desafios. Questões como segurança, custódia, transparência, tributação, liquidez e proteção do consumidor continuam no centro das discussões regulatórias.

Ainda assim, o movimento dos dois bancos mostra que a blockchain começa a ocupar um espaço mais concreto na infraestrutura financeira brasileira.

Mais do que testar uma tecnologia, as instituições estão construindo serviços em torno dela. E, à medida que esses projetos avançam, a tokenização e as criptomoedas podem deixar de ocupar um espaço paralelo ao sistema financeiro para se integrar cada vez mais à sua estrutura.