Jogadores viram criadores na nova fase dos games Web3
Durante muito tempo, os jogos Web3 chamaram atenção pela promessa de oferecer propriedade digital por meio de NFTs e ativos em blockchain. No entanto, a indústria começa a seguir outro caminho. Agora, o foco está menos na tecnologia e mais nas ferramentas que permitem aos próprios jogadores criar novas experiências.
Além disso, a inteligência artificial acelera essa transformação. Em vez de exigir equipes numerosas e meses de desenvolvimento, ela reduz barreiras e ajuda criadores independentes a tirar projetos do papel com mais rapidez. Como resultado, empresas do setor passaram a investir em plataformas que incentivam a participação da comunidade.
Essa tendência aparece em diferentes iniciativas anunciadas na última semana. The Sandbox, MapleStory Universe e YGG adotaram estratégias distintas. Ainda assim, todas compartilham o mesmo objetivo: transformar jogadores em criadores e ampliar seus ecossistemas com conteúdo desenvolvido pela própria comunidade.
The Sandbox aposta na criatividade da comunidade
O The Sandbox decidiu colocar essa ideia em prática com sua primeira Game Jam para Criadores Alpha. A competição utiliza o novo Sandbox Studio, plataforma que reúne ferramentas de inteligência artificial para facilitar a criação de jogos dentro do ecossistema.
O evento acontece até 31 de julho e distribuirá US$ 5 mil em prêmios. Entretanto, a recompensa financeira representa apenas uma parte da iniciativa. O estúdio pretende acompanhar todo o processo de desenvolvimento para entender como os participantes utilizam as novas ferramentas e quais recursos ainda precisam de ajustes.
Além da competição, o cronograma inclui oficinas, sessões de perguntas e respostas e acompanhamento da equipe responsável pela plataforma. Dessa forma, os criadores recebem suporte durante todas as etapas do projeto.
A estratégia também revela uma mudança de prioridades. Durante anos, o The Sandbox concentrou boa parte de seus esforços na economia de terrenos virtuais e ativos digitais. Agora, a empresa busca fortalecer a produção de experiências criadas pelos próprios usuários, tornando o conteúdo mais importante do que os itens negociados dentro da plataforma.
Se essa proposta alcançar o resultado esperado, o estúdio poderá ampliar seu catálogo sem depender exclusivamente de equipes internas. Ao mesmo tempo, os criadores passam a desempenhar um papel central na evolução do ecossistema.
Interessados podem solicitar participação no programa Alpha Creators do The Sandbox, que oferece acesso antecipado às ferramentas de desenvolvimento e às próximas competições.
MapleStory mostra a força da comunidade
Enquanto o The Sandbox aposta em uma competição para testar suas ferramentas, o MapleStory Universe já apresenta resultados concretos dessa estratégia.
A Nexpace promoveu o Vibe Camp, uma maratona de desenvolvimento realizada em parceria com a Verse8. Durante três semanas, criadores utilizaram inteligência artificial e recursos oficiais da franquia para desenvolver novos jogos inspirados no universo de MapleStory.
Os números ajudam a dimensionar o projeto. A iniciativa recebeu 693 jogos, dos quais 435 já podem ser testados pelo público. Além disso, quase 30 mil jogadores participaram das experiências, somando mais de 88 mil sessões de jogo.
O documento afirma que 341.253 recursos oficiais únicos da MSU foram utilizados, gerando um total de 1,4 milhão de utilizações (o que denomina conexões entre recursos e projetos), com uma média de 434 recursos por projeto.
“Esses não eram jogos genéricos com um logotipo do MapleStory . Eles foram criados a partir dos próprios monstros, habilidades, mapas, NPCs e sons da franquia, em combinações que o jogo original nunca foi lançado”, diz a publicação no Medium.
No entanto, o maior destaque não está apenas na quantidade de projetos.
Os participantes tiveram acesso aos personagens, mapas, monstros, habilidades e outros elementos oficiais da franquia. Assim, puderam criar experiências inéditas sem abrir mão da identidade que tornou MapleStory conhecido ao longo de mais de duas décadas.
Como consequência, surgiram jogos de estratégia, RPGs, aventuras narrativas, simuladores, jogos de cartas e diversos outros estilos que nunca fizeram parte oficialmente da série.
Esse resultado reforça uma mudança importante para o setor. Em vez de controlar totalmente suas propriedades intelectuais, algumas empresas começam a permitir que a comunidade participe da expansão desses universos.
A estratégia também mantém o ecossistema ativo após o encerramento da competição. Atualmente, cerca de 1.250 desenvolvedores continuam trabalhando em quase 3 mil projetos, ampliando continuamente o catálogo do MapleStory Universe.
Os jogos desenvolvidos durante o Vibe Camp permanecem disponíveis no MSU Space, onde qualquer jogador pode experimentar os projetos e votar em seus favoritos.
Nem todo projeto sobrevive, e isso também faz parte da evolução
Enquanto algumas empresas ampliam suas ferramentas de criação, outras precisaram rever seus planos. A YGG mostrou isso ao anunciar o encerramento da plataforma YGG Play, mesmo após registrar mais de US$ 9 milhões em receita desde o lançamento.
A decisão surpreendeu parte da comunidade. Afinal, a plataforma publicou jogos como LOL Land, Waifu Sweeper, Gigachadbat e Ragnarok Breaker. Ainda assim, a empresa concluiu que o modelo deixou de ser sustentável diante das mudanças do mercado.
Segundo o cofundador Gabby Dizon, a receita começou a perder força após a queda da liquidez no mercado de criptomoedas em outubro de 2025. Como consequência, o público casual também reduziu sua participação, afetando diretamente a operação da plataforma.
Por isso, a YGG encerrará o YGG Play e desligará 35 funcionários. Entretanto, a empresa não abandonou sua estratégia de longo prazo. Em vez disso, decidiu concentrar seus investimentos em inteligência artificial.
A nova fase inclui o desenvolvimento de soluções B2B voltadas para treinamento de modelos de IA, utilizando conjuntos de dados gerados pelo universo dos games. Além disso, a iniciativa AI Alerts conecta profissionais a oportunidades remotas ligadas ao treinamento e à implementação de ferramentas de inteligência artificial.
A mudança reforça uma percepção que começa a ganhar força no setor. Nem sempre o sucesso depende de lançar novos jogos. Em alguns casos, criar ferramentas, infraestrutura e serviços para outros desenvolvedores pode representar um caminho mais sustentável.
A YGG publicou mais detalhes sobre essa transição e os próximos passos da empresa em seu comunicado oficial.
A próxima disputa acontece fora das telas
Os anúncios da última semana mostram que os jogos Web3 atravessam uma nova fase. Embora blockchain e propriedade digital continuem importantes, elas deixaram de ocupar o centro das atenções.
Agora, a principal disputa acontece em torno da criatividade.
Enquanto o The Sandbox busca facilitar o desenvolvimento de novas experiências, o MapleStory Universe abre sua propriedade intelectual para que a comunidade amplie um universo criado há mais de duas décadas. Ao mesmo tempo, a YGG reorganiza seus negócios para acompanhar o avanço da inteligência artificial.
Esses movimentos apontam para uma transformação maior. O jogador deixa de ser apenas consumidor e passa a participar da construção dos próprios mundos virtuais.
Se essa tendência continuar, o futuro dos games Web3 poderá depender menos da venda de tokens e mais da capacidade de reunir comunidades criativas em torno de boas ferramentas. Afinal, a tecnologia continua importante, mas ela faz mais sentido quando amplia a diversão, incentiva novas ideias e coloca os jogadores no centro da experiência.