KOSPI da Coreia do Sul oscila 17% em dois dias
Depois de liderar entre as grandes bolsas em 2026, impulsionado pelo boom de chips para inteligência artificial, o KOSPI, principal índice acionário da Coreia do Sul, registrou uma das oscilações mais intensas de sua história recente. Em 48 horas, o mercado caiu com força e, em seguida, recuperou quase tudo.
Assim, o movimento expôs a concentração da aposta global em inteligência artificial. Além disso, reforçou por que investidores em semicondutores e em Bitcoin seguem sensíveis às mudanças de política monetária do Federal Reserve.
Na segunda-feira, 8 de junho, o KOSPI caiu 8,29% e fechou em 7.484,41 pontos. A sessão teve uma interrupção automática de 20 minutos nas negociações. No dia seguinte, o índice saltou 8,18% e encerrou em 8.096,93 pontos. Portanto, em duas sessões, um mercado avaliado em trilhões de dólares somou movimentos diários próximos de 17 pontos percentuais.
O KOSPI funciona como principal referência acionária da Coreia do Sul, em papel comparável ao S&P 500 dos Estados Unidos. Ele acompanha cerca de 950 empresas listadas na Korea Exchange e pondera as companhias por valor de mercado. Dessa forma, poucas fabricantes de chips, lideradas por Samsung Electronics e SK Hynix, influenciam o índice de maneira desproporcional.
No pico do início de junho, o valor total do índice havia superado 7.000 trilhões de won, cerca de US$ 4,6 trilhões. Além disso, a queda de segunda-feira apagou mais de 554 trilhões de won, ou cerca de US$ 360 bilhões, em um único dia.
A aposta em IA elevou o risco do mercado sul-coreano
O rali do KOSPI em 2026 nasceu quase por completo da inteligência artificial. De fato, o índice acumulou alta de cerca de 92% com a demanda por hardware de IA, o avanço dos preços dos chips e a corrida global por data centers. Nesse cenário, Samsung Electronics e SK Hynix responderam por aproximadamente 72% dos ganhos.
Quando um mercado depende tanto de duas ações, uma mudança de humor tende a contaminar todo o restante. Foi exatamente isso que ocorreu após um novo sinal vindo dos Estados Unidos.
Em 5 de junho, um forte relatório de emprego mostrou a criação de 172 mil vagas em maio, acima das projeções próximas de 85 mil. Além disso, o dado marcou o ritmo de contratação mais sólido em 18 meses. Como resultado, o mercado reduziu as apostas em cortes de juros pelo Federal Reserve.
Juros mais altos por mais tempo costumam pressionar ações de tecnologia com valuations elevados. Afinal, a valorização dessas empresas depende de lucros esperados para os próximos anos. Na sequência, a Broadcom projetou vendas de IA abaixo do esperado por Wall Street, e suas ações recuaram cerca de 13%. Com isso, o principal índice de semicondutores dos Estados Unidos caiu mais de 10% na sexta-feira anterior à abertura de Seul.
Alavancagem agravou a queda do KOSPI
Quando o mercado sul-coreano abriu na segunda-feira, Samsung Electronics e SK Hynix já acumulavam perdas em torno de 10%. Ao mesmo tempo, investidores de varejo da Coreia do Sul haviam ampliado posições alavancadas nessas gigantes. A dívida em margem alcançou o recorde de 37,74 trilhões de won, cerca de US$ 25 bilhões.
Quando preços caem em posições financiadas com empréstimos, corretoras exigem mais garantias. Dessa maneira, novas vendas entram em cascata e aprofundam a baixa. O indicador de aversão ao risco do mercado local subiu para um recorde, acima até do pico observado na crise financeira.
No entanto, a pressão não ficou restrita à Coreia do Sul. Na terça-feira, nos Estados Unidos, o Nasdaq caiu mais de 4% no meio do dia, antes de fechar com perda de cerca de 1%. Investidores venderam nomes mais arriscados de tecnologia e migraram para ações defensivas, como varejistas e empresas de bens de consumo básico.
Entre os papéis afetados apareceu a Strategy, hoje vista por parte do mercado financeiro tradicional como uma aposta alavancada em Bitcoin. Assim, o episódio reforçou como operações ligadas à inteligência artificial e ao mercado cripto passaram a caminhar juntas.
Por que a oscilação do KOSPI importa para o Bitcoin
A recuperação do KOSPI refletiu mais uma melhora do sentimento global do que uma virada estrutural na demanda por IA. Um cessar-fogo entre Israel e Irã reduziu a tensão nos mercados. Além disso, Jensen Huang, diretor executivo da Nvidia, classificou a liquidação como oportunidade de compra. Ações de chips nos Estados Unidos também reagiram durante a madrugada.
Ainda assim, o debate sobre valuation permanece aberto. O relatório de emprego de 5 de junho derrubou o Bitcoin para a mínima de 2026, perto de US$ 59.100. Ao mesmo tempo, o movimento eliminou mais de US$ 1,7 bilhão em apostas alavancadas no mercado de criptomoedas em um dia. Também prolongou uma sequência recorde de saídas em fundos dos Estados Unidos expostos ao ativo.
Essa conexão não nasce de um elo direto entre Seul e Bitcoin. Em outras palavras, ela depende da liquidez global. Ações de IA e ativos do mercado cripto avançaram em um ambiente de dinheiro barato e apetite elevado por risco. Quando investidores passam a precificar juros mais altos por mais tempo, a retirada de capital costuma ocorrer ao mesmo tempo em vários segmentos especulativos.
Federal Reserve pode decidir o próximo movimento
Ao mesmo tempo, a expansão da infraestrutura de inteligência artificial começa a ser vista como possível fator de pressão inflacionária para o Federal Reserve. Com gastos em IA se aproximando de US$ 800 bilhões em 2026, os custos com energia, chips e mão de obra também avançam. Portanto, o mesmo ciclo que sustenta as ações de tecnologia pode dificultar cortes de juros.
Por um lado, a tese otimista continua apoiada na força dos investimentos em IA e na resiliência dos resultados das fabricantes de chips. Por outro lado, a leitura mais cautelosa destaca valuations esticados, ganhos concentrados em poucos nomes e o efeito amplificador da alavancagem em cada rodada de queda.
Depois de quase dobrar de valor em 2026, o KOSPI devolveu em um dia parte relevante dos ganhos acumulados. Em seguida, recuperou quase tudo na sessão seguinte. Em suma, o episódio mostrou um mercado cada vez mais dependente da confiança dos investidores e dos próximos passos do Federal Reserve.
A reunião do Federal Reserve está marcada para 16 e 17 de junho. Será a primeira sob o comando do novo presidente Kevin Warsh. Além disso, o próximo relatório de inflação dos Estados Unidos tende a ser decisivo. Esses eventos podem indicar se a turbulência na Coreia do Sul foi apenas um susto pontual ou um alerta antecipado para ativos sustentados pela mesma dinâmica de liquidez.