Mercados de previsões atraem Cantor Fitzgerald e Kalshi
Em 19 de agosto de 2026, a Cantor Fitzgerald anunciou que oferecerá aos clientes institucionais acesso aos mercados de previsões da Kalshi. A empresa, com mais de 80 anos de atuação em Wall Street, funcionará como introducing broker em negociações em bloco.
Nesse modelo, a Cantor Fitzgerald estruturará e executará operações fora do livro público de ordens. Enquanto isso, a Susquehanna Predictions fornecerá preços e liquidez para essas negociações. O acordo cria uma nova porta de entrada para investidores de grande porte.
O anúncio representa uma mudança mais ampla do que o possível ganho direto da instituição. O setor começa a desenvolver infraestrutura para fundos, family offices e mesas institucionais, além de atender usuários de varejo. Embora o interesse esteja crescendo, a adesão institucional ainda permanece em estágio inicial.
Contratos transformam acontecimentos em negociações
Em agosto, a Morgan Stanley publicou uma pesquisa com mais de 500 estagiários de Wall Street na América do Norte. Mais de um em cada quatro participantes afirmou ter usado Kalshi ou Polymarket no último ano. Dessa forma, uma nova geração de profissionais financeiros já combina ações, futuros e contratos sobre acontecimentos.
Durante décadas, Wall Street desenvolveu instrumentos para negociar e proteger o valor de ações, títulos, moedas e commodities. Nesses casos, o investidor assume uma posição relacionada ao preço futuro de um ativo. Futuros e opções também ampliaram as alternativas disponíveis para esse objetivo.
Já os mercados de previsões permitem negociar a ocorrência de um acontecimento. O resultado pode depender de um dado de inflação, uma decisão do Fed, uma eleição, uma mudança regulatória ou uma condição climática.
Por exemplo, executivos da Cantor Fitzgerald citaram fundos interessados em contratos ligados à quantidade de iPhones vendidos. Alguns family offices também exploram eventos relacionados ao clima e ao preço de safras. Assim, esses produtos podem oferecer uma proteção mais diretamente vinculada ao risco analisado.
Outros participantes avaliam gargalos na cadeia de suprimentos da inteligência artificial ou mudanças no custo de computação. A proteção tradicional, em comparação, exige posições em ativos que apenas se aproximam desses riscos. No entanto, muitos contratos ainda não apresentam liquidez ou profundidade suficientes para uso em larga escala.

A fronteira entre aposta e instrumento financeiro
A principal fronteira envolve a definição de onde termina uma aposta e começa um instrumento financeiro. Enquanto futuros e opções acompanham preços de ativos, contratos de previsão pagam conforme a ocorrência de eventos específicos. Ainda assim, ambos transformam incertezas futuras em preços negociáveis.
Em uma análise de julho, a Jefferies apresentou três perspectivas usadas por investidores institucionais. Primeiro, eles acompanham os preços como sinais de informação em tempo real. Depois, avaliam o uso dos contratos para proteção ou geração de alpha.
A terceira perspectiva envolve controles internos para impedir que funcionários negociem determinados contratos. Goldman Sachs e Morgan Stanley já restringiram seus profissionais de operar alguns eventos. Ao mesmo tempo, a pesquisa indica que parte dos estagiários utiliza essas plataformas pelo celular.
Entre os principais obstáculos, a Jefferies destacou a liquidez limitada, a incerteza regulatória e as exigências de conformidade. Também faltam padrões e formatos uniformes para os contratos. A resolução dos eventos gera dúvidas adicionais sobre critérios, fontes e responsáveis pela decisão final.
Por isso, a instituição considera que os hedge funds ainda estão longe de uma adoção em massa. O crescimento do interesse não elimina os riscos operacionais e jurídicos. Além disso, cada contrato pode exigir regras específicas para evitar interpretações divergentes.
Preços funcionam como sinais para investidores
Para Wall Street, o primeiro produto valioso pode ser a informação gerada pelos contratos, e não a negociação em si. Quando milhares de participantes operam um mesmo evento, o preço expressa uma probabilidade coletiva implícita. Assim, gestores podem incorporar esse dado aos seus modelos.
A Kalshi identificou essa possibilidade e também oferece sua plataforma como fonte de dados para investidores. Com isso, preços relacionados à inflação, às decisões do Fed ou a mudanças regulatórias podem servir como sinais adicionais. Esses indicadores complementam informações da curva de futuros e da volatilidade implícita das opções.
Uma análise do Pew Research Center, citada pela Jefferies, apontou forte crescimento do setor. O volume mensal global combinado de Kalshi e Polymarket passou de menos de US$ 5 bilhões, em setembro de 2025, para cerca de US$ 24 bilhões, em abril de 2026.
As duas plataformas ocupam posições relevantes, mas adotam modelos diferentes. A CFTC regula a Kalshi nos Estados Unidos como uma bolsa de contratos de eventos. Por outro lado, a Polymarket surgiu como uma plataforma baseada em criptomoedas e se tornou a maior do mundo.
Apesar do avanço no volume, os mercados de previsões ainda não formam uma classe institucional consolidada. A expansão dependerá da liquidez, das decisões regulatórias e da confiança nos processos de resolução. Esses fatores determinarão se o interesse atual resultará em adoção duradoura por Wall Street.