Michael Burry amplia short contra Micron e chips de IA
Michael Burry, investidor conhecido por antecipar o colapso das hipotecas subprime em 2008, ampliou uma nova rodada de posições vendidas. Agora, os alvos incluem empresas e veículos expostos, direta ou indiretamente, ao ciclo de inteligência artificial e semicondutores. Entre eles aparecem Nvidia, Tesla, Applied Materials, Caterpillar, o ETF iShares Semiconductor e, sobretudo, a Micron Technology.
De acordo com a sequência de publicações feita por Burry a partir de 30 de junho no Substack, o atual entusiasmo com inteligência artificial entrou em fase de excesso. Assim, em 1º de julho, ele informou uma posição vendida em Micron, aberta por volta de US$ 1.052 por ação.
Fonte: Knockout Stocks
Na avaliação de Burry, a narrativa da inteligência artificial seria “nada mais do que um vício em massa”. Além disso, ele reforçou o tom pessimista ao citar o Coringa do filme Batman, de 1989. Na referência, o investidor afirmou que “o fim está próximo” e que o mercado estaria “dançando com o diabo ao luar”.
Burry também compartilhou visualizações de dados da Bloomberg. Os gráficos mostravam fabricantes de chips voltados para IA subindo muito mais do que provedores de infraestrutura em nuvem, que financiam essa expansão. Outro gráfico indicava o Philadelphia Semiconductor Index perto do topo de sua faixa de valuation dos últimos 15 anos.
Tese de Burry aponta excesso na inteligência artificial
O foco principal da crítica de Michael Burry recaiu sobre a Micron. Segundo ele, a ação tem histórico fortemente cíclico e acumulou 34 quedas superiores a 30% nos últimos 42 anos. Dessa forma, o investidor sustenta que o papel costuma atravessar movimentos extremos de alta e baixa.
Burry afirmou ter calculado retorno mediano sobre capital investido de apenas 4%. Além disso, estimou retorno mediano sobre patrimônio líquido de 7% para a companhia. Em sua leitura, esses indicadores seriam “francamente terríveis” e sugeririam destruição de valor ao acionista em cerca de um a cada três trimestres.
Ele também minimizou a importância atual dos produtos de memória de alta largura de banda da Micron. Essa linha virou peça central da demanda ligada à inteligência artificial. No entanto, para Burry, ela seria apenas “mais uma em uma longa série” de ofertas sem posição competitiva sustentável no longo prazo.
Na prática, a tese vendida não parte da ideia de enfraquecimento imediato do negócio. Pelo contrário, o argumento central é que a valorização teria ido longe demais. Segundo Burry, o avanço foi impulsionado por medo de ficar de fora, teoria do maior tolo e viés de comprometimento público. Nesse sentido, o comportamento cíclico do mercado de memória voltaria a pesar sobre o papel.
Resultados recentes desafiam a leitura pessimista
Os números mais recentes da Micron, porém, apontam uma direção diferente da leitura histórica feita por Burry. No trimestre encerrado em maio de 2026, a empresa informou receita de US$ 41,5 bilhões, alta anual de 346%.
No mesmo período, a margem bruta saltou para 84,6%, ante 37,7% no intervalo comparável do ano anterior. Ademais, o lucro líquido chegou a US$ 28,2 bilhões, contra US$ 1,9 bilhão doze meses antes. Já o fluxo de caixa livre atingiu US$ 17,6 bilhões, acima dos US$ 1,7 bilhão registrados no mesmo trimestre do ano anterior.
Durante a teleconferência de resultados de 24 de junho, o diretor de negócios, Sumit Sadana, disse que o apetite dos clientes por produtos de memória está “bem acima da nossa capacidade de oferta” em praticamente todas as linhas da companhia. Segundo ele, essa pressão de demanda se estende até 2028.
Valuation da Micron divide o mercado
As ações da Micron acumulavam valorização de cerca de 1.000% nos três anos anteriores. Além disso, avançavam aproximadamente 260% apenas em 2026. Ainda assim, mesmo após recuar em relação ao ponto de entrada citado por Burry, o papel seguia negociado perto de US$ 976 por ação.
Nesse patamar, a empresa era negociada a aproximadamente 22 vezes lucro. A administração também projetou receita em torno de US$ 50 bilhões para o próximo trimestre. Esse dado ajuda a explicar por que parte do mercado mantém uma visão otimista sobre a companhia, apesar do alerta do investidor.
Assim, o embate em torno da Micron não se concentra em deterioração operacional imediata. A disputa está no choque entre fundamentos recentes muito fortes e uma aposta de que o valuation passou do limite. De um lado, Michael Burry aponta excesso, ciclo e risco de correção. Por outro, a companhia apresenta receita de US$ 41,5 bilhões, margem bruta de 84,6%, lucro líquido de US$ 28,2 bilhões e demanda acima da capacidade de oferta até 2028.
Nesse cenário, a tese de Burry indica que o mercado pode ter esticado demais os múltiplos das empresas expostas à inteligência artificial. Ainda assim, os resultados recentes da Micron mantêm viva a visão de que o ciclo atual possui suporte operacional relevante. Por isso, essa posição vendida se tornou uma das mais observadas de 2026.