Mizuho defende alta maior de juros pelo BOJ
O presidente-executivo do Mizuho Financial Group, Masahiro Kihara, defendeu uma elevação mais significativa dos juros pelo Banco do Japão. Segundo ele, uma ação menos cautelosa teria efeito líquido positivo sobre o mercado de títulos do país. Além disso, ajudaria a restaurar uma dinâmica mais normal para os títulos soberanos japoneses.
A fala ocorre em um momento decisivo para a política monetária japonesa. Na reunião de 27 e 28 de abril, o Banco do Japão manteve a taxa básica em 0,75%. Ainda assim, a votação terminou em 6 a 3 e revelou uma divergência interna mais clara. Assim, três integrantes defenderam ação imediata, sinalizando que o debate sobre aperto monetário ganhou força dentro da autoridade monetária.
Votação dividida expõe pressão por aperto
Masahiro Kihara não está isolado nessa avaliação. Kenya Koshimizu, co-chefe de mercados do Mizuho, afirmou que o Banco do Japão poderia elevar as taxas até três vezes em 2026. Além disso, o próprio Kihara já indicou que a taxa terminal da política monetária japonesa pode alcançar ao menos 1,5%. Ele também vê possibilidade de nova alta já na primavera do hemisfério norte.
Embora a reunião de abril não tenha produzido ajuste imediato, o Banco do Japão elevou suas projeções de inflação. Dessa forma, o mercado interpretou o movimento como preparação para um aperto monetário nos meses seguintes. Por isso, parte dos investidores passou a precificar a chance de uma alta de juros já em junho.
Para o Mizuho, a discussão vai além do cenário macroeconômico. O grupo reportou lucro líquido recorde de 1,25 trilhão de ienes no ano fiscal encerrado em março de 2026. Isso representou avanço de 41% na comparação anual. O desempenho recebeu impulso importante da expansão das margens líquidas de juros, isto é, da diferença entre o que os bancos recebem em empréstimos e o que pagam em depósitos.
Lucro recorde amplia peso da visão do banco
Esse resultado ajuda a explicar por que o Mizuho passou a defender com mais clareza uma normalização monetária mais firme. Afinal, juros mais altos tendem a favorecer a rentabilidade dos grandes bancos japoneses. Ao mesmo tempo, a discussão interessa a investidores que acompanham renda fixa, câmbio e ativos digitais, já que mudanças de liquidez global também influenciam o mercado de blockchain.
Mercado de títulos pode reagir com melhora de preços
Executivos do Mizuho argumentam que uma elevação mais decisiva dos juros ajudaria a corrigir distorções acumuladas no mercado de títulos públicos japoneses. Durante mais de uma década, o Banco do Japão atuou como principal comprador dos títulos do governo japonês, os chamados JGBs. Como resultado, os rendimentos ficaram comprimidos e a formação natural de preços perdeu eficiência.
Na visão do grupo, um aperto monetário mais claro poderia estabilizar os rendimentos de longo prazo, reduzir desequilíbrios e incentivar o retorno de investidores privados ao mercado. Esse processo também tenderia a melhorar a descoberta de preços, hoje prejudicada pela presença dominante do banco central nas negociações de títulos soberanos.
O placar de 6 a 3 na reunião de abril reforça essa leitura. Afinal, três membros votaram por ação imediata, o que indica maior tração da ala favorável ao aperto. Nesse sentido, as próximas decisões do Banco do Japão passam a ter peso ainda maior para investidores, sobretudo após a revisão para cima das projeções de inflação.
Blockchain entra no radar para operações com JGBs
Ao mesmo tempo, o Mizuho também acompanha mudanças estruturais na infraestrutura do mercado japonês de renda fixa. Em 20 de abril, o banco aderiu a um consórcio voltado a um projeto de prova de conceito para ampliar a integração de blockchain em operações com colateral de JGBs. Segundo a iniciativa, o foco inclui aplicações para instrumentos tradicionais de renda fixa, bem como títulos tokenizados de segurança.
Esse movimento mostra uma estratégia em duas frentes. De um lado, juros mais altos podem alterar a atratividade e a precificação dos títulos públicos. De outro, soluções baseadas em blockchain podem tornar a operação desses ativos mais eficiente. Nesse cenário, a combinação entre normalização monetária e inovação tecnológica pode mudar de forma relevante o funcionamento do mercado japonês, área acompanhada pelo Mizuho Financial Group.
Em suma, a taxa em 0,75%, a divisão de votos em 6 a 3, a alta das projeções de inflação, a possibilidade de aumento em junho e o lucro recorde de 1,25 trilhão de ienes ajudam a explicar a posição do Mizuho. O grupo sinaliza que a normalização monetária no Japão deixou de ser uma hipótese distante e passou a ocupar o centro das expectativas do mercado.