Morgan Stanley vê educação como trava do Bitcoin

O Morgan Stanley ampliou sua estratégia em ativos digitais em janeiro de 2026, quando nomeou Amy Oldenburg diretora de estratégia de ativos digitais para toda a instituição. A executiva soma 26 anos no banco e construiu carreira em mercados emergentes, câmbio e ações. Além disso, atuou em regiões onde a infraestrutura bancária formal era frágil ou inexistente.

Em entrevista ao podcast Coin Stories, apresentado por Natalie Brunell, Oldenburg disse que essa trajetória moldou sua visão sobre o futuro do Bitcoin. Segundo ela, os primeiros casos de uso mais relevantes surgiram em mercados internacionais e transfronteiriços. Afinal, muitas pessoas não rejeitavam bancos por ideologia. O sistema financeiro já havia falhado para elas.

Oldenburg relembrou a expansão do M-Pesa, serviço de dinheiro móvel da Safaricom, no leste da África em 2007. Conforme descreveu, mulheres carregavam saldo em celulares simples, em vilarejos com energia elétrica precária e estradas de terra. Nesse sentido, esse contexto ajudou a mostrar o valor de soluções descentralizadas para transferência e armazenamento de valor. Para ela, o paralelo com o Bitcoin foi imediato.

Morgan Stanley avançou com cautela no mercado

Regulação e crise setorial atrasaram a estratégia

A entrada do Morgan Stanley no mercado de Bitcoin ocorreu de forma gradual. Oldenburg explicou que o banco integra o grupo das instituições financeiras sistemicamente importantes em escala global, conhecidas como G-SIB. Em contraste com a BlackRock, que atua como gestora independente de ativos, o Morgan Stanley faz parte de uma holding bancária supervisionada pelo Federal Reserve.

Por isso, a instituição enfrentou exigências de capital e restrições regulatórias mais rígidas. Dessa forma, não conseguiu acompanhar, na mesma velocidade, o lançamento de produtos de criptomoedas por concorrentes. Ademais, o banco também lidou com obstáculos de execução.

Em 2024, o Morgan Stanley já havia estruturado um plano para lançar negociação à vista de criptomoedas na plataforma E-Trade. No entanto, fornecedores avaliados para parceria tinham colapsado na crise setorial marcada pela queda da FTX e de diversas empresas menores. Como resultado, a estratégia precisou ser reconstruída quase do zero.

O Morgan Stanley lançou o Morgan Stanley Bitcoin Trust, sob o ticker MSBT, em 7 de abril de 2026. Assim, o produto se tornou o primeiro ETF spot de Bitcoin emitido por um banco licenciado nos Estados Unidos. O analista sênior de ETFs da Bloomberg, Eric Balchunas, indicou em dados que o Yahoo Finance repercutiu que a estreia foi a mais forte do tipo na história da instituição. O fundo captou mais de US$ 33,8 milhões e entrou no grupo de 1% dos lançamentos de ETFs com maior volume no primeiro dia.

Além disso, o MSBT chegou ao mercado com taxa de administração de 0,14%. Por consequência, tornou-se o ETF de Bitcoin mais barato dos Estados Unidos, 11 pontos-base abaixo do IBIT, da BlackRock.

Educação ainda limita a adoção entre assessores

Banco vê gargalo na compreensão do ativo

Para Amy Oldenburg, o maior desafio agora não está mais na estruturação do produto. Segundo ela, a dificuldade central é fazer o ETF ser efetivamente usado pela própria rede de assessoria patrimonial do Morgan Stanley. O banco administra cerca de US$ 9,3 trilhões em ativos de clientes. Além disso, em outubro de 2025, seu Comitê Global de Investimentos recomendou formalmente alocação de 2% a 4% em criptomoedas para carteiras moderadas a agressivas com foco em crescimento.

Nessa recomendação, o comitê descreveu o Bitcoin como um ativo escasso, comparável ao ouro digital. Ainda assim, a adesão dos assessores segue lenta. Oldenburg atribui esse quadro diretamente a um déficit de educação financeira e técnica.

De acordo com a executiva, muitos profissionais ainda não conseguem diferenciar com clareza o Bitcoin da categoria mais ampla de criptomoedas. Além do mais, vários assessores não conseguem explicar aos clientes as diferenças estruturais entre Bitcoin, Ethereum e Solana. Em outras palavras, falta segurança para responder se esse tipo de ativo deve ou não compor uma carteira de aposentadoria.

Na avaliação de Oldenburg, o problema aparece dos dois lados. Por um lado, investidores que acompanharam o colapso de corretoras de criptomoedas associam os ativos digitais ao caos da era FTX. Por outro lado, assessores com responsabilidade fiduciária relutam em recomendar um ativo que ainda se comporta mais como ação de risco do que como proteção independente contra a inflação.

“Ainda não está tudo se encaixando”, afirmou Oldenburg, ao comparar o momento atual aos primeiros anos do BlackBerry, quando percebia relevância na tecnologia, mas o caso de uso ainda não parecia claro para a maioria das pessoas.

Esse entendimento reforça declarações anteriores feitas por ela na Bitcoin Conference. Na ocasião, a executiva sustentou que o Bitcoin ainda é amplamente mal compreendido. Também afirmou que a educação do investidor representa o principal entrave para uma adoção mais ampla. Segundo Oldenburg, o Morgan Stanley treina assessores, amplia o acesso a produtos ligados ao mercado de criptomoedas e acompanha o progresso regulatório com atenção.

O que pode destravar a próxima alta do Bitcoin

Crise de confiança pode fortalecer a tese do ativo

Questionada sobre o que poderia levar o Bitcoin a uma alta mais decisiva, Oldenburg apresentou uma resposta alinhada à sua experiência em mercados sob estresse. Para ela, esse avanço pode depender de uma crise. Contudo, não necessariamente de um evento súbito e dramático.

Segundo a executiva, um processo gradual de erosão da confiança na infraestrutura financeira tradicional poderia evidenciar melhor a utilidade do Bitcoin como reserva de valor descentralizada e sem fronteiras. Ela afirmou já ter visto essa dinâmica em mercados emergentes e também em episódios ligados à Rússia e à Ucrânia. Nesses casos, pessoas conhecidas por ela perderam acesso a ativos bancários praticamente da noite para o dia.

Sobre a possibilidade de bancos dos Estados Unidos manterem Bitcoin em seus balanços, Oldenburg afirmou que esse caminho depende de mudanças no tratamento de capital. Mais especificamente, depende da remoção do peso regulatório que hoje torna o ativo menos eficiente do que outras classes sob a ótica do balanço patrimonial.

O Morgan Stanley também busca uma licença digital de trust junto ao Office of the Comptroller of the Currency, o OCC. Se conseguir essa autorização, poderá oferecer custódia direta de criptomoedas e internalizar uma parte relevante de sua estratégia de ativos digitais.

No balanço de Oldenburg, o Morgan Stanley já superou parte dos entraves regulatórios e operacionais ao lançar o MSBT em 7 de abril de 2026, com captação inicial acima de US$ 33,8 milhões e taxa de 0,14%. Ainda assim, a executiva vê na educação sobre Bitcoin o principal gargalo para acelerar a adoção entre assessores, clientes e, futuramente, até nos balanços dos bancos.