Nobitex é ligada a suspeitas de driblar sanções dos EUA
Uma investigação recente colocou a Nobitex, maior corretora de criptomoedas do Irã, no centro de um debate sensível sobre sanções internacionais. A apuração indica que a plataforma se consolidou como um canal relevante em um sistema financeiro paralelo, permitindo a movimentação de recursos fora das restrições impostas pelos Estados Unidos.
Além disso, o relatório levanta dúvidas sobre a estrutura de controle da empresa. Segundo a investigação, a Nobitex seria administrada por dois membros da influente família Kharrazi, grupo com presença política e religiosa no país e ligações com a liderança suprema iraniana.
Operações financeiras e impacto das sanções
A Nobitex foi fundada em 2018 pelos irmãos Ali e Mohammad Kharrazi. Inicialmente, operou sob outro nome. Atualmente, a plataforma afirma ter cerca de 11 milhões de usuários, o equivalente a mais de 10% da população iraniana.
O crescimento da corretora acompanha o cenário econômico local. Com efeito, a desvalorização do rial e a inflação persistente pressionaram a população. Além disso, restrições ao sistema bancário tradicional levaram muitos iranianos a buscar alternativas no mercado de criptomoedas.
Ao mesmo tempo, a investigação aponta que a Nobitex processou transações que variam de dezenas a centenas de milhões de dólares. Essas operações estariam associadas a entidades sob sanções, incluindo o banco central do Irã e a Guarda Revolucionária Islâmica.
Conforme a apuração, a corretora não atende apenas usuários comuns. Em contrapartida, poderia funcionar como canal indireto para o Estado iraniano movimentar recursos para aliados externos. As conclusões se baseiam em análises de blockchain conduzidas pela Crystal Intelligence e em entrevistas com investigadores financeiros e profissionais ligados à própria plataforma.
Resposta da empresa e ligações políticas
Ex-funcionários relataram acreditar que a corretora foi utilizada por órgãos governamentais e de segurança para contornar sanções financeiras ocidentais. No entanto, a Nobitex contestou essas alegações.
Em resposta, a empresa afirmou que nunca firmou acordos com órgãos do governo iraniano. Além disso, declarou que os funcionários entrevistados não tinham conhecimento direto dessas práticas. Ainda assim, destacou que enfrenta restrições impostas pelo próprio governo.
Entre essas limitações, a empresa cita invasões a escritórios, bloqueio de domínios e interrupções no acesso ao sistema bancário. Dessa forma, argumenta que tais ações enfraquecem a hipótese de apoio estatal direto.
Paralelamente, a investigação detalha o histórico da família Kharrazi. Os irmãos pertencem à terceira geração de um grupo com laços com a liderança iraniana desde a Revolução Islâmica de 1979, com atuação em cargos políticos, diplomáticos e religiosos.
Volume de transações e divergências de dados
Mesmo em períodos de crise, a Nobitex manteve suas operações. Durante o conflito envolvendo Estados Unidos e Israel, iniciado em 28 de fevereiro, a corretora permaneceu ativa, apesar de apagões de internet e interrupções de energia em Teerã.
Dados de três empresas de análise de blockchain indicam que a plataforma processou mais de US$ 100 milhões em transações nesse período, cerca de 20% de sua atividade habitual.
Por outro lado, as estimativas sobre transações potencialmente ilícitas divergem. A Elliptic aponta cerca de US$ 366 milhões. Já a Chainalysis estima aproximadamente US$ 68 milhões. Em contrapartida, a Crystal Intelligence calcula cerca de US$ 22 milhões em transferências diretas provenientes de carteiras sancionadas.
Em conclusão, os dados indicam que a Nobitex ocupa posição relevante no ecossistema financeiro iraniano. Ao mesmo tempo, as divergências entre análises e as versões conflitantes reforçam a complexidade do caso, que envolve sanções internacionais e o uso da blockchain em contextos geopolíticos sensíveis.