OWS Brasil: Justiça dos EUA cobra dados sobre Banco Master
A Justiça dos Estados Unidos determinou que a One World Services (OWS) entregue informações detalhadas sobre operações com o Banco Master. Entre dezembro de 2018 e abril de 2021, o banco enviou US$ 531 milhões, cerca de R$ 2,8 bilhões, à plataforma. Na época, a instituição ainda usava o nome Banco Máxima. Contudo, Daniel Vorcaro já controlava o banco.
O liquidante apresentou o pedido, e o juiz Scott M. Grossman autorizou a medida na Vara de Falências do Distrito Sul da Flórida. Conforme informações do Estadão, a ordem reúne 16 exigências de documentos e dados. Entre elas, estão contratos com Vorcaro e empresas relacionadas a ele. A lista também inclui registros de serviços, movimentações financeiras e informações sobre recursos sob custódia.
A determinação ainda abrange comunicações realizadas por WhatsApp, Telegram, Signal e iMessage. Com isso, o liquidante pretende rastrear o destino do dinheiro e identificar os proprietários dos valores enviados à OWS. A investigação também procura possíveis vínculos entre a plataforma e empresas relacionadas ao grupo de Vorcaro.
Operações da OWS entram no foco da investigação
A defesa de Vorcaro informou que não comentaria o caso. Enquanto isso, a OWS Brasil não respondeu ao pedido de entrevista. A relação entre a empresa e o Banco Master já havia chamado a atenção das autoridades brasileiras. Em fevereiro, a Polícia Federal apurava operações de câmbio realizadas pelo banco para a One World Services.
A PF investigava a empresa sob suspeita de lavar dinheiro para organizações criminosas, incluindo o PCC e o Hezbollah. Além de prestar outros serviços, a OWS atuava como mesa de balcão, conhecida pela sigla OTC. Nesse modelo, a empresa vendia criptomoedas diretamente a clientes de grande porte. As operações analisadas envolveram contas mantidas no Banco Master.
Segundo a investigação, a companhia teria usado essas contas para comprar criptomoedas em nome de terceiros. Posteriormente, a Justiça condenou algumas dessas pessoas e empresas por lavagem de dinheiro. No entanto, a OWS não teria apresentado toda a documentação exigida pelo Banco Central para esse tipo de operação cambial.
PF identificou 331 remessas ligadas a offshore em Miami
No caso do Banco Master, a PF identificou 331 operações justificadas como aumento de capital de uma offshore da OWS em Miami. Pelas regras vigentes naquele período, cada remessa exigia uma ata societária que comprovasse o aporte. Contudo, as autoridades receberam apenas 15 atas. Essa diferença passou a integrar a apuração sobre a regularidade das transferências.
A PF também apontou indícios de enquadramento inadequado das remessas. Assim, a classificação adotada teria reduzido a alíquota do IOF aplicada às operações. A Operação Colossus também mirou a OWS em 2022. A ação investigou movimentações suspeitas bilionárias envolvendo recursos digitais.
Nesse conjunto de investigações, a Polícia Federal acompanha fluxos que chegam a R$ 60 bilhões. Desse total, R$ 8 bilhões correspondem apenas a operações de câmbio. Um dos nomes associados ao caso é o corretor Dante Felipini, conhecido como Criptoboy. As autoridades apontaram Felipini como cliente e parceiro da OWS.
Em 2025, a Justiça condenou Felipini a 17 anos de prisão por lavagem de dinheiro e associação criminosa. Paralelamente, o liquidante ampliou nos Estados Unidos a busca por recursos ligados ao Banco Master. A apuração também procura reconstruir o fluxo financeiro das operações. Por sua vez, a EFB Regimes Especiais intensificou o rastreamento de bens de Vorcaro, familiares e sócios no país.
Busca por recursos do Banco Master avança nos EUA
Em outra frente, os advogados do liquidante protocolaram intimações na Justiça Federal de Falências do Sul da Flórida. Os pedidos buscam contratos, escrituras, dados bancários, mensagens e o rastro do dinheiro usado na compra de imóveis. Esses imóveis mantêm ligação com empresas associadas ao círculo do ex-banqueiro. Além dos bens, a apuração procura identificar os participantes das transações.
As solicitações abrangem o período iniciado em janeiro de 2018. Nesse contexto, a ordem dirigida à OWS acrescenta operações com criptomoedas à investigação. Agora, os responsáveis pelo caso tentam determinar se as remessas cambiais financiaram compras de recursos digitais no exterior.
Ao mesmo tempo, os investigadores analisam possíveis falhas deliberadas de conformidade e controle. A dificuldade para rastrear estruturas empresariais nos Estados Unidos ganhou relevância após uma mudança regulatória. Por isso, as regras sobre identificação de beneficiários finais também passaram a influenciar o cenário da apuração. Essas informações permitem identificar quem controla ou se beneficia de determinada empresa.
Mudança regulatória reduz transparência empresarial
Em agosto, o governo Trump concluiu uma regra que isenta empresas e cidadãos americanos de informar beneficiários finais ao FinCEN. O órgão integra o Tesouro dos Estados Unidos e atua no combate a crimes financeiros. Na prática, a medida reverte parte das exigências criadas por uma lei de 2021. A legislação buscava combater lavagem de dinheiro e financiamento ilícito.
Para críticos, a redução da transparência pode facilitar o uso de empresas de fachada para ocultar recursos. Por outro lado, o Tesouro americano afirma que a mudança elimina uma obrigação onerosa para milhões de empresários. Segundo o órgão, a alteração não compromete a segurança nacional. O debate ocorre enquanto investigadores buscam estruturas e recursos ligados ao Banco Master nos Estados Unidos.
Os dados da OWS podem ajudar a esclarecer o destino de quase R$ 3 bilhões enviados ao exterior. A investigação pretende determinar se o dinheiro pertencia ao banco, aos clientes ou a estruturas ligadas ao grupo controlador. Dessa maneira, documentos financeiros e comunicações internas podem contribuir para a reconstrução do fluxo dos recursos.