Paulo Picchetti: Bitcoin nasceu da desconfiança
O Bitcoin surgiu como resposta à perda de confiança nas instituições financeiras tradicionais. Ainda assim, enfrenta limitações relevantes para se consolidar como meio de pagamento no cotidiano. A avaliação foi feita por Paulo Picchetti, diretor de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos do Banco Central, durante evento realizado na segunda-feira (6).
Em seminário do FGV Ibre, conforme reportagem do Valor Econômico, Picchetti associou a criação do ativo ao ambiente de insatisfação com o sistema financeiro, especialmente após a crise de 2008. Nesse contexto, movimentos como o Occupy Wall Street reforçaram críticas ao modelo tradicional e estimularam o interesse por alternativas descentralizadas.
Assim, esse cenário favoreceu a ascensão das criptomoedas como proposta disruptiva. Ao mesmo tempo, ampliou o debate sobre o monopólio estatal na emissão de moeda.
“Isso gerou entusiasmo entre os críticos do monopólio na emissão da moeda. O problema é que é uma moeda referenciada nela própria”, afirmou durante o XII Seminário Anual de Política Monetária, promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
Uso do Bitcoin ainda é limitado no dia a dia
Embora reconheça a relevância histórica do Bitcoin, Picchetti destacou limitações práticas. Atualmente, o uso cotidiano da criptomoeda permanece restrito, sobretudo em transações simples.
Segundo ele, ainda não há ampla aceitação comercial. Por exemplo, pagar um café com Bitcoin segue sendo incomum. Dessa forma, a adoção como meio de pagamento ainda está distante do esperado por seus idealizadores.
Por outro lado, o diretor ressaltou que o ativo teve papel importante na evolução do mercado digital. Afinal, abriu espaço para o desenvolvimento de soluções financeiras baseadas em tecnologia de registro distribuído.
Stablecoins avançam e levantam preocupações
Além disso, o crescimento das stablecoins representa uma evolução relevante do setor. Esses ativos tendem a apresentar menor volatilidade, o que amplia seu uso em transferências e pagamentos.
No entanto, Picchetti alertou para riscos regulatórios. Segundo ele, o uso dessas moedas em remessas internacionais fora dos canais tradicionais exige maior atenção das autoridades.
“No nosso caso, stablecoins vêm sendo usadas como forma de fazer remessas para o exterior sem passar por mecanismos tradicionais. A regulação envolve termos controle sobre isso, já que há preocupações com mau uso, como lavagem de dinheiro, terrorismo e tráfico de drogas”, explicou.
Assim sendo, o Banco Central busca equilibrar inovação e supervisão. O objetivo é mitigar riscos e, ao mesmo tempo, permitir o avanço tecnológico com segurança.
Drex avança, mas enfrenta entraves técnicos
Outro ponto abordado foi o Drex, projeto do Banco Central para uma versão digital do real. A iniciativa pretende modernizar o sistema financeiro, especialmente por meio da tokenização de ativos.
Segundo Picchetti, a proposta envolve a criação de uma infraestrutura eficiente para registro digital. Isso poderia facilitar operações como compra e venda de imóveis e veículos. No entanto, o projeto ainda enfrenta desafios técnicos relevantes.
O diretor afirmou que há “vários nós” a serem resolvidos, o que indica a complexidade da implementação e a ausência de um prazo definido.
Busca por nova solução tecnológica
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já havia mencionado dificuldades semelhantes. Em novembro, ele indicou que a tecnologia inicialmente adotada não se mostrou viável após anos de testes.
De acordo com Galípolo, a instituição procura uma solução que combine segurança, liquidez, escalabilidade e privacidade. Entretanto, após cerca de quatro anos de desenvolvimento, a abordagem anterior não atendeu plenamente a esses critérios.
Como resultado, novas alternativas passaram a ser avaliadas. Em janeiro, o secretário-executivo do Banco Central, Rogério Lucca, sinalizou que a tokenização de ativos reais segue como prioridade estratégica.
Em conclusão, as declarações evidenciam dois movimentos paralelos. Por um lado, o Bitcoin permanece como símbolo da desconfiança no sistema financeiro tradicional. Por outro, iniciativas institucionais como o Drex avançam de forma gradual, diante de desafios técnicos e regulatórios ainda em aberto.