Pix, Cripto ou Cartão: Quem vai mandar no seu dinheiro?
As stablecoins seguem entre os temas centrais do debate sobre o futuro do sistema financeiro. Ainda assim, o Banco Central do Brasil avalia que versões atreladas ao real devem ter espaço mais limitado no mercado doméstico. Para a autoridade monetária, o principal motivo está na infraestrutura de pagamentos já consolidada no país, com o Pix como referência.
E esse foi o foco no painel “Pix, Cripto ou Cartão: Quem vai mandar no seu dinheiro?” no TokenNation 2026, com participação de Pedro Nascimento, coordenador do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do Banco Central do Brasil; Antônia Souza, diretora de moedas digitais da Visa para América Latina e Caribe; e Jorge Borges, head Latam da Fireblocks.
Pedro Nascimento afirmou que a demanda interna por stablecoins de real para uso cotidiano tende a ser relativamente baixa. Segundo ele, grande parte das necessidades dos consumidores brasileiros já encontra resposta nos meios de pagamento disponíveis.
“De certa maneira seria como um instrumento de câmbio. Grande parte da demanda já é atendida internamente por instrumentos como o Pix”.
Infraestrutura local reduz apelo no varejo
Ao detalhar essa avaliação, Pedro Nascimento citou o próprio Pix, além de cartões, TEDs e outras alternativas amplamente difundidas no país. Assim, na visão do representante do Banco Central do Brasil, a vantagem de uma stablecoin atrelada ao real para pagamentos do dia a dia tende a ser pequena. A comparação ocorre com ferramentas já incorporadas à rotina dos usuários.
Ainda assim, isso não significa que o Banco Central do Brasil veja pouco potencial nesse tipo de ativo. Pelo contrário, Nascimento afirmou que o maior valor das stablecoins pode surgir em aplicações ligadas à tokenização de ativos e aos processos de liquidação financeira em ambientes construídos sobre blockchain.
“Não significa que não tenha vantagem. Seria útil ter uma camada de liquidação nativa”, afirmou. “É um caso de uso mais limitado. Estamos em um ponto de definição de como vai ser a stablecoin no Brasil. Há medidas específicas de disclosure com proibição de stablecoins algorítmicas”, acrescentou.
“Estamos no momento de discutir no Congresso como seria essa regulamentação. É uma discussão legislativa em que o BC participa do debate. Vemos a importância da stablecoin de real ou em moeda estrangeira e pensamos no futuro da stablecoin no Brasil”, concluiu o executivo do Banco Central.
Além disso, o debate ganhou força nos últimos meses com o avanço global das stablecoins e com iniciativas voltadas à emissão de versões lastreadas em real por empresas do setor de criptomoedas. Contudo, segundo Pedro Nascimento, uma regulamentação mais ampla para esse mercado ainda depende de discussões legislativas, especialmente sobre regras para a emissão desses ativos.
Liquidação em blockchain ganha destaque
Se o Banco Central do Brasil enxerga limitações para o uso de stablecoins de real como instrumento de pagamento no varejo, participantes da indústria defendem outra frente de crescimento. Para esse grupo, esses ativos vêm se consolidando como porta de entrada da tecnologia blockchain no sistema financeiro tradicional.
Jorge Borges, head Latam da Fireblocks, afirmou que as stablecoins já respondem por mais de dois terços do volume processado pela companhia. Segundo ele, trata-se de uma mudança importante em relação aos primeiros anos do mercado de criptomoedas.
“Lá atrás o volume era 20% stablecoin e 80% outros ativos cripto. Hoje está próximo de dois terços do volume”, disse.
Na avaliação de Jorge Borges, o principal valor das stablecoins não está necessariamente na experiência final de pagamento do consumidor, que no Brasil já conta com a agilidade do Pix 24/7. Em vez disso, o ganho mais relevante aparece nos mecanismos de liquidação e movimentação de recursos nos bastidores bancários, onde o sistema tradicional ainda enfrenta horários rígidos e janelas de compensação.
“O pagamento no varejo já é 24 por 7. O que a gente vê de muito valor na cadeia é o que acontece por trás, otimizando o que a gente chama de liquidação institucional”, afirmou.
Além do uso operacional, Jorge Borges acrescentou que as stablecoins funcionam como ponte para uma transformação mais ampla dos mercados financeiros. Dessa forma, elas abrem espaço para produtos tokenizados, como ações, ETFs e outros ativos tradicionais.
“A stablecoin foi a ponte que está permitindo que o mercado financeiro tradicional comece a experimentar a tecnologia em escala”, afirmou.
Pix, cartões e cripto devem coexistir
Apesar da expansão das stablecoins, a expectativa apresentada no painel aponta para a coexistência entre diferentes formas de movimentação de dinheiro nos próximos anos. Ou seja, não se trata de substituição direta. Pelo contrário, Pix, cartões e criptoativos tendem a funcionar de forma complementar no mercado brasileiro.
Antônia Souza, diretora de moedas digitais da Visa para América Latina e Caribe, afirmou que a empresa enxerga essas soluções como partes de um mesmo ecossistema. Assim, o usuário pode escolher a ferramenta mais adequada para cada tipo de uso.
“No final do dia, a gente quer que o usuário possa escolher a melhor solução para ele no caso de uso que faz sentido para ele”, disse.
Segundo a executiva, o próprio mercado já oferece exemplos concretos dessa integração. Hoje, usuários podem transferir recursos via Pix para plataformas de criptoativos, converter esses valores em stablecoins ou outras criptomoedas e depois utilizar os recursos por meio de cartões ligados a carteiras digitais.
“Essas três modalidades já estão sendo utilizadas. O Pix facilita a compra da cripto, o cartão facilita o gasto, e essas tecnologias vão coexistir. Uma potencializa a outra”, afirmou.
Mercado ainda vê novas aplicações
Antônia Souza também avaliou que o setor ainda explora apenas uma parcela das possibilidades abertas pelas stablecoins. Entre os campos com maior potencial, ela citou dinheiro programável e inteligência artificial. Portanto, o debate atual pode representar apenas uma etapa inicial da adoção desses instrumentos.
“Muitos dos casos de uso que usamos hoje para stablecoin ainda estão na superfície. Uma vez que esses problemas mais básicos estiverem resolvidos, surgem muitos outros casos de uso”, declarou.
Por ora, o Banco Central do Brasil reforça que não pretende escolher vencedores entre as diferentes tecnologias. Segundo Pedro Nascimento, cabe à autoridade monetária garantir um ambiente competitivo e seguro, enquanto o mercado oferece soluções e os consumidores decidem quais delas terão maior adesão.
“Não cabe a gente escolher a solução melhor ou mais eficiente. Cabe ao mercado oferecer seus produtos e aos consumidores escolherem”, afirmou.
Em suma, a discussão no TokenNation 2026 reuniu duas leituras complementares. De um lado, o Pix reduz a necessidade de stablecoins de real no uso cotidiano. De outro, esses ativos podem ganhar relevância na liquidação financeira, na tokenização e na integração entre infraestrutura tradicional e blockchain, enquanto Pix, cartões e criptoativos seguem coexistindo no Brasil.