Pix foi só o começo: BC aposta em Drex e tokenização

O Banco Central do Brasil (BC) prioriza a estabilidade em seu planejamento estratégico para 2026-2029, focando em garantir a estabilidade de preços, um sistema financeiro sólido e o bem-estar econômico da sociedade, com ações como o avanço do Pix, Open Finance e Drex, modernização regulatória (Basileia III), e fortalecimento da governança, refletindo seu papel de instituição de estado para um futuro financeiro mais digital, inclusivo e resiliente, destacou o Secretário-Executivo Rogério Antônio Lucca. 

Banco Central prepara nova infraestrutura digital pública para o ciclo 2026–2029

O sucesso do Pix representou apenas o primeiro estágio de uma transformação estrutural no sistema financeiro brasileiro. Essa é a avaliação de Rogério Lucca ao apresentar o planejamento estratégico da autarquia para o ciclo de 2026 a 2029, sobre as prioridades da autoridade monetária para os próximos quatro anos. A transmissão aconteceu no dia 19 de dezembro de 2025, às 14h, no Canal do BC no YouTube.​

De acordo com Lucca, na LiveBC #48 – Planejamento Estratégico do BC: o que vem por aí nos próximos quatro anos, a tokenização de ativos do mundo real (RWA) e a reestruturação do Drex ocupam posição central na agenda de inovação da autoridade monetária. E a convergência entre essas duas frentes dará origem àquilo que o BC define como a terceira grande infraestrutura digital pública do país. Esse novo pilar se somaria ao Pix e ao Open Finance, ampliando o alcance da digitalização financeira para além dos meios de pagamento e do compartilhamento de dados.

A visão do Banco Central é clara. O Drex, enquanto plataforma de liquidação e programabilidade, não alcança seu potencial pleno sem um ecossistema funcional de ativos tokenizados. Da mesma forma, a tokenização carece de um ambiente institucional seguro e padronizado para ganhar escala e relevância sistêmica.

Drex e tokenização levam eficiência do Pix à camada de ativos

Para Lucca, o avanço simultâneo do Drex e da tokenização é essencial para transportar a eficiência operacional do Pix para a camada de ativos financeiros. Essa evolução permitiria reduzir custos, aumentar a segurança e ampliar o acesso a serviços financeiros mais sofisticados.

Ancorado no compromisso com a estabilidade financeira, o novo planejamento estratégico do BC busca modernizar o mercado de capitais brasileiro sem comprometer a robustez do sistema. A proposta não é apenas tecnológica, mas estrutural, ao redesenhar a forma como ativos são emitidos, negociados e liquidados.

Nesse contexto, o secretário executivo destacou que, ao longo dos próximos quatro anos, as informações compartilhadas no Open Finance deverão se integrar à liquidação atômica e à programabilidade financeira. Esse movimento ampliaria o uso inteligente dos dados financeiros e dos ativos digitais.

Segundo Lucca, o mesmo ganho informacional já observado no Open Finance tende a se expandir com a adoção do Drex e da tokenização. Assim, ativos financeiros poderão ser utilizados de maneira mais eficiente como garantia ou base para a obtenção de crédito e outros serviços financeiros.

Integração entre Pix, Open Finance e Drex redefine o sistema financeiro

A integração entre Pix, Open Finance e Drex representa, segundo o BC, o principal diferencial do sistema financeiro nacional em relação a outras jurisdições. Cada infraestrutura cumpre um papel específico, mas complementar.

Enquanto o Pix revolucionou a movimentação de recursos, a tokenização abre espaço para novos casos de uso envolvendo diferentes tipos de ativos. O Open Finance, por sua vez, democratiza o acesso à informação financeira, reduz assimetrias e estimula a concorrência. Já o Drex atua como a camada de liquidação e programabilidade que conecta esses elementos.

Lucca explicou que esse arranjo torna os produtos financeiros mais baratos para o cliente final e aumenta a segurança do sistema como um todo. No Open Finance, por exemplo, o compartilhamento de informações permite que múltiplas instituições avaliem o perfil de crédito de um mesmo cliente, criando um ambiente mais competitivo.

Nesse cenário, o acesso ao crédito deixa de ficar concentrado em uma única instituição. Outros bancos e fintechs passam a ter condições de oferecer propostas mais vantajosas, com taxas melhores e maior eficiência.

Além do Drex, o desenvolvimento de novas infraestruturas digitais inclui a integração do sistema de títulos públicos brasileiros ao mercado internacional. O BC também trabalha na modernização dos regimes de resolução das instituições financeiras, com o objetivo de fortalecer a resiliência do sistema.

Essas iniciativas buscam facilitar o acesso de investidores estrangeiros ao mercado brasileiro, o que pode gerar efeitos positivos sobre a liquidez, a formação de preços e, indiretamente, sobre a condução da política monetária.

Inovação amplia riscos e exige maior rigor regulatório

Lucca reconheceu que o avanço tecnológico adiciona novos vetores de risco ao sistema financeiro. O crescimento de fraudes e golpes registrado em 2025 reforçou a necessidade de ajustes regulatórios e de maior fiscalização sobre os agentes do mercado.

Ainda assim, o secretário executivo destacou que as infraestruturas geridas diretamente pelo Banco Central nunca sofreram ataques bem-sucedidos ou violações de segurança. Os episódios de fraude envolvendo valores elevados ocorreram em instituições que participam do ecossistema do Pix, e não nos sistemas centrais administrados pelo BC.

A estratégia do Banco Central é clara. O objetivo é fortalecer a proteção do sistema sem sufocar a inovação. Nas palavras de Lucca, trata-se de aumentar a segurança sem “jogar o bebê fora com a água suja”, preservando os ganhos de eficiência conquistados nos últimos anos.

Entre as medidas já em curso, o BC prevê regras mais claras e supervisão direta para os Prestadores de Serviços de Ativos Virtuais (PSAVs). Além disso, o monitoramento sobre instituições que oferecem infraestrutura bancária para terceiros será intensificado. As exigências de capital mínimo para novas instituições também serão elevadas, assegurando que apenas empresas financeiramente robustas integrem o sistema.

Brasil quer manter liderança global em inovação financeira

Para Lucca, a agenda de inovação do Banco Central seguirá em ritmo acelerado até 2029. A meta é fomentar um ecossistema no qual o Drex funcione como a base de uma economia tokenizada, integrada e regulada.

Ao combinar a democratização da informação proporcionada pelo Open Finance com a programabilidade do dinheiro viabilizada pelo Drex e pela tokenização, o Brasil consolida sua posição de destaque no cenário global de inovação financeira.

Apesar do otimismo institucional, o projeto do Drex ainda enfrenta desafios tecnológicos. Conforme já indicado pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, a tecnologia blockchain mostrou-se inadequada para algumas das necessidades da moeda digital brasileira.

Diante disso, a próxima fase do projeto deve priorizar mecanismos mais eficientes para facilitar o acesso ao crédito, com entregas mais rápidas e soluções práticas para os usuários finais. Ainda assim, o Banco Central mantém o compromisso de avançar na modernização do sistema financeiro, preservando a estabilidade e a confiança que sustentam o modelo brasileiro.