SBI usa XRP em vouchers para atrair depósitos no Japão
O SBI Shinsei Bank, do grupo japonês SBI, começou a oferecer recompensas em criptomoedas a clientes de depósitos bancários. A campanha teve início em 10 de junho, dura três meses e usa vouchers resgatáveis em BTC, ETH ou XRP pela plataforma SBI VC Trade.
Na prática, o depósito continua em iene, e o banco também paga os juros em iene. Ainda assim, o cliente recebe um benefício adicional: um voucher equivalente a 20% do valor líquido dos juros. Depois, ele pode converter esse crédito em criptomoedas. Assim, o SBI tenta tornar o depósito mais competitivo sem elevar a remuneração de toda a base.
A iniciativa surge em um momento de mudança relevante no Japão. A taxa básica do Bank of Japan está em 0,75%, o maior nível em décadas. Ao mesmo tempo, três membros do colegiado já defenderam uma alta para 1,0%.
Banco japonês testa criptomoedas como incentivo
Uma pesquisa publicada em 10 de junho indicou que 94% dos economistas esperavam alta da taxa para 1,0% até o fim de junho. Além disso, mais de 75% projetavam 1,25% até o quarto trimestre.
Esse cenário pressiona os bancos a disputar depósitos com mais intensidade. Em setembro de 2025, a relação entre empréstimos e depósitos no Japão subiu para 65,7%, o maior nível desde março de 2020. Em outras palavras, a demanda doméstica por crédito cresceu e aumentou o valor estratégico da captação.
Ao mesmo tempo, as contas de investimento NISA chegaram a 28,26 milhões. A reguladora financeira japonesa indicou que as compras acumuladas somavam cerca de US$ 442 bilhões até o fim de 2025. O volume ficou acima da meta oficial de US$ 349 bilhões para 2027.
Desse modo, o mercado de depósitos deixou de operar por inércia. Os bancos japoneses já não podem presumir que o dinheiro das famílias ficará parado em contas correntes ou aplicações conservadoras. Nesse sentido, a campanha do SBI mede se recompensas ligadas ao mercado de criptomoedas podem reforçar a fidelização.
Como funciona o voucher em BTC, ETH e XRP
Os números ajudam a explicar o apelo do modelo. No fim de 2025, os ativos financeiros das famílias japonesas somavam aproximadamente US$ 14,65 trilhões. Desse total, cerca de US$ 7,10 trilhões estavam em dinheiro e depósitos. A fatia supera com folga a dos Estados Unidos, com 10%, e a do Reino Unido, com 35%.
Por décadas, juros próximos de zero mantiveram os depositantes quase cativos. Agora, porém, taxas em alta, expansão do NISA e recuperação das bolsas mudaram o cálculo econômico. Dessa forma, grandes grupos financeiros japoneses, como SMFG e MUFG, passaram a integrar banco, corretora e pagamentos para manter os recursos dos clientes dentro do próprio ecossistema.
O SBI adotou lógica semelhante ao usar o voucher de criptomoedas como ponte para a SBI VC Trade. Para receber a recompensa em BTC, ETH ou XRP, o cliente precisa abrir conta na corretora do grupo. Portanto, um produto bancário tradicional também passa a servir como canal de aquisição para a operação de ativos digitais.
O desenho lembra programas de pontos de cartão e milhas aéreas. Afinal, ele adiciona um benefício pequeno, mas com percepção de valor elevada, a um produto financeiro de margem baixa.
XRP ganha espaço recorrente nas campanhas do SBI
Um exemplo citado mostra que um depósito de cerca de US$ 6.231 por um ano, a uma taxa de 1,0%, renderia algo em torno de US$ 50 líquidos após a retenção padrão de 20,315% no Japão. Nesse caso, o voucher de 20% sobre esse juro equivaleria a aproximadamente US$ 10, ou cerca de 0,16% do principal.
Em um depósito de três meses de cerca de US$ 1.850 na mesma taxa, o juro líquido ficaria em torno de US$ 3,75. Assim, o voucher seria de aproximadamente US$ 0,75. Já em outro exemplo de campanha, um depósito próximo de US$ 62.300 por seis meses geraria cerca de US$ 174 líquidos e um voucher em XRP ao redor de US$ 62. Esse valor supera 20% do juro e indica foco em faixas promocionais.
Esses valores sugerem que a ação funciona como um cupom de aquisição de cliente. Além disso, esse custo pode ficar abaixo do impacto de elevar amplamente a taxa paga em depósitos.
A estratégia atual, contudo, não surgiu do nada. Em setembro de 2025, SBI VC Trade e SBI Shinsei já haviam realizado uma campanha com vouchers de cerca de US$ 6 em XRP para clientes elegíveis. Além disso, o grupo distribuiu uma parcela de US$ 623 mil em XRP, condicionada à abertura de conta SBI Hyper Yokin e ao cumprimento de exigências de saldo.
Posteriormente, em fevereiro de 2026, o SBI Shinsei lançou nova ação com até US$ 124 em vouchers de XRP para depósitos a prazo PowerDirect em iene, com vencimento de seis meses. Na ocasião, a SBI VC Trade apresentou o programa como uma forma de permitir que clientes tivessem experiência com XRP por meio de depósitos convencionais.
O que o grupo pode ganhar com a estratégia
O uso recorrente do token faz sentido dentro da estrutura do grupo. A SBI Ripple Asia, joint venture entre SBI Holdings e Ripple, posiciona o XRP dentro da infraestrutura financeira do conglomerado desde sua fundação. Assim, o ativo aparece nessas campanhas como um incentivo já integrado ao ecossistema do SBI.
O desfecho depende da adesão dos poupadores japoneses. Em um cenário conservador, se os clientes preferirem bônus em dinheiro ou buscarem taxas melhores em concorrentes, a conversão pode ficar entre 0,5% e 1% das 4,33 milhões de contas elegíveis. Isso representaria entre cerca de 22 mil e 43 mil novas ativações na SBI VC Trade.
Por outro lado, em um cenário mais forte, a leitura muda se a recompensa em criptomoedas se mostrar eficiente e mais barata do que competir diretamente por juros. Com taxa de conversão de 7% a 12%, o SBI poderia gerar entre aproximadamente 303 mil e 520 mil ativações na corretora.
Nessa escala, a tese deixaria de ser apenas promocional. Em vez disso, passaria a indicar a possibilidade de usar recompensas em criptomoedas como camada recorrente de retenção em depósitos, títulos e produtos de investimento. Em suma, o prêmio real nessa disputa é o relacionamento financeiro completo com o investidor de varejo japonês, incluindo depósitos, investimentos, corretagem, cartões e exposição ao mercado de criptomoedas.
Os dados centrais reforçam esse objetivo. A campanha chegou a um universo de 4,33 milhões de contas, oferece vouchers equivalentes a 20% dos juros líquidos e ocorre com a taxa básica japonesa em 0,75%. Ao mesmo tempo, o avanço do NISA, com 28,26 milhões de contas e cerca de US$ 442 bilhões em compras acumuladas, aumenta a pressão competitiva sobre os bancos.