Schwab: Bitcoin pode ter piso em US$ 60 mil

O Bitcoin segue em mercado de baixa, mas a correção recente pode estar perto de uma zona estrutural relevante. Jim Ferraioli, diretor de pesquisa e estratégia de moedas digitais da Charles Schwab, afirma que o custo de mineração ajuda a definir um piso técnico e econômico para o ativo. Em entrevista, ele disse que o movimento atual depende menos de sentimento e mais do custo energético necessário para produzir novas moedas.

Os números reforçam essa leitura. Depois de alcançar US$ 126 mil no segundo semestre de 2025, o Bitcoin caiu para cerca de US$ 60 mil em fevereiro. Assim, acumulou retração de 50%. Ainda assim, a queda ficou abaixo dos colapsos superiores a 75% vistos em ciclos anteriores da criptomoeda.

Custo de mineração sustenta tese de piso

O centro da análise de Ferraioli está no custo de produção de 1 Bitcoin. Segundo ele, esse dado cria um piso natural, já observado em vários ciclos do mercado cripto. Para os mineradores mais eficientes, que operam em larga escala, usam ASICs de nova geração e compram energia barata no mercado atacadista, o custo gira em torno de US$ 60 mil por unidade.

Esse valor considera uma operação abastecida por energia perto de US$ 0,07 por quilowatt-hora e equipada com semicondutores avançados. Em contrapartida, mineradores menos eficientes enfrentam custos próximos de US$ 95 mil por BTC. Esse grupo costuma operar com ASICs antigos, energia mais cara e margens operacionais menores.

Dados da Glassnode citados no relatório de maio de 2026 da Charles Schwab indicam que a faixa entre US$ 60 mil e US$ 95 mil ajuda a enquadrar o valuation atual do ativo. Além disso, Ferraioli argumenta que, em mercados de baixa mais profundos, o custo dos mineradores mais eficientes historicamente funciona como piso. A mínima de fevereiro, perto de US$ 60 mil, coincidiu quase exatamente com esse nível. Também ficou próxima da média móvel de 200 semanas do BTC.

Base de custo dos investidores limita recuperação

A pressão vendedora, segundo a Schwab, não surge de forma aleatória. Ela se concentra em investidores que compraram Bitcoin nos últimos 18 meses. Esse grupo acompanhou a alta desde abaixo de US$ 80 mil até US$ 126 mil. Depois, viu os ganhos desaparecerem.

Para medir essa pressão, a instituição acompanha duas métricas. A primeira é o custo médio de compra dos detentores de ETFs e ETPs spot dos Estados Unidos, estimado em cerca de US$ 83 mil. A segunda é a base de custo dos investidores ativos, sem considerar moedas recebidas por mineradores, em torno de US$ 78 mil. Como ambas seguem acima do preço à vista, a maior parte dos compradores recentes carrega prejuízo não realizado. Dessa forma, a região de US$ 83 mil atua mais como teto de oferta represada do que como suporte.

Dados on-chain da Glassnode reforçam essa dinâmica. A tentativa mais recente de recuperação perdeu força justamente perto da base agregada de custo dos ETFs, ao redor de US$ 83 mil. Ao mesmo tempo, as perdas realizadas chegaram a US$ 1,35 bilhão por dia. Detentores de longo prazo também passaram a capitular após posições abertas perto do topo do ciclo.

A mesma análise aponta que fundos de hedge representam cerca de 30% da posse de ETPs spot. No entanto, esse grupo está posicionado de forma neutra, explorando operações de basis trade em vez de apostar na direção do preço. Portanto, esses investidores não atuam como compradores naturais quando a cotação cai.

Mineradores de Bitcoin ampliam foco em IA

Outro ponto destacado por Jim Ferraioli envolve a mudança estratégica das grandes mineradoras listadas em bolsa. Segundo ele, essas empresas anunciaram movimento em direção à computação de alto desempenho, ou HPC, voltada a cargas de inferência em inteligência artificial. Em termos econômicos, a inferência pode gerar receita líquida maior por megawatt-hora do que a mineração de Bitcoin durante janelas de demanda máxima.

Ao mesmo tempo, essa demanda por inferência de IA não permanece constante ao longo do dia. Os modelos tendem a operar com maior intensidade em horário comercial. Já à noite e nos fins de semana, ficam mais ociosos. Nesse intervalo, a mineração de Bitcoin volta a ganhar importância econômica.

Estrutura híbrida pode reduzir pressão de venda

Na modelagem da Schwab, o Bitcoin funciona como a melhor forma de monetizar energia de base nas horas de menor demanda. Já a inferência em IA ocupa os períodos de maior consumo corporativo. Assim, uma atividade não substitui a outra. Pelo contrário, as duas podem coexistir na mesma estrutura operacional.

Para um data center, isso significa maior taxa de utilização ao longo das 24 horas. Além disso, reduz a ociosidade quando a procura por inferência cai. Para os mineradores, o efeito potencial inclui receita mais estável, menor necessidade de vender BTC para cobrir custos operacionais e risco estrutural menor durante ciclos de baixa.

Bitcoin é tratado como ativo ancorado em energia

A tese por trás dessa visão está ligada à economia da energia. O Bitcoin não gera lucro, fluxo de caixa livre nem projeções corporativas. Segundo Ferraioli, seu valor deriva do custo energético necessário para produzi-lo. Ele considera esse dado transparente, verificável e historicamente resiliente.

Nos mercados de commodities, preços abaixo do custo de produção costumam se mostrar insustentáveis por muito tempo. Quando isso ocorre, produtores desligam operações, a oferta encolhe e o equilíbrio tende a voltar para níveis mais altos. De acordo com o estrategista, o Bitcoin segue lógica semelhante. Quando o preço à vista se aproxima de US$ 60 mil, mineradores menos eficientes saem de operação. Depois, a taxa de hash da rede se ajusta pelo mecanismo de dificuldade do protocolo, e o custo de produção por nova moeda recua.

Dados da MacroMicro mostram que, em maio de 2026, o custo médio de mineração em toda a rede estava perto de US$ 85.604. Com o Bitcoin negociado na faixa de US$ 60 mil, a rede como um todo operava no prejuízo. Historicamente, porém, esse cenário antecedeu recuperações, e não uma nova fase de colapso mais profundo.

Em resumo, Jim Ferraioli aponta quatro níveis para interpretar o ciclo atual do Bitcoin. O patamar de US$ 60 mil marca o custo dos mineradores mais eficientes e a mínima de fevereiro. Já US$ 78 mil e US$ 83 mil concentram a base de custo de investidores recentes e de ETFs. Por fim, US$ 95 mil reflete a pressão sobre operadores menos competitivos. Esses dados formam a estrutura usada pela Charles Schwab para analisar o mercado neste momento.