Sequans vende Bitcoin e reduz reservas pela metade

A Sequans Communications, fabricante francesa de semicondutores voltados para Internet das Coisas, vendeu 1.025 unidades de Bitcoin no primeiro trimestre de 2026. Como resultado, a companhia reduziu quase pela metade suas reservas do ativo digital, em meio à queda de receita e ao aumento expressivo dos prejuízos. O movimento expõe fragilidades na estratégia financeira adotada nos últimos trimestres.

Conforme documento, a posição caiu de 2.139 BTC no fim de 2025 para 1.114 BTC em 30 de abril de 2026. Além disso, esta foi a segunda liquidação relevante em menos de seis meses. Anteriormente, a empresa havia indicado a intenção de acumular até 3.000 BTC como reserva de valor de longo prazo.

Queda de receita pressiona estratégia com Bitcoin

Os resultados financeiros ajudam a explicar a decisão. A Sequans registrou receita de US$ 6,1 milhões no trimestre encerrado em 31 de março, queda de 24,8% em relação aos US$ 8,1 milhões do mesmo período de 2025. Em paralelo, parte relevante da receita anterior vinha de acordos com a Qualcomm, que não se repetiram, evidenciando a fraqueza nas vendas principais.

Ao mesmo tempo, as vendas de hardware cresceram 45% na comparação anual. Ainda assim, a margem bruta recuou de 64,5% para 37,7%, pressionada pela maior dependência de produtos com menor rentabilidade. Em outras palavras, receitas mais lucrativas de licenciamento deram lugar a vendas menos eficientes.

O impacto do Bitcoin foi significativo nas contas. A companhia reportou prejuízo operacional de US$ 50,5 milhões no trimestre. Desse total, US$ 29,3 milhões correspondem a perdas não realizadas com a desvalorização do ativo. Além disso, US$ 11,7 milhões vieram de perdas efetivas com a venda dos BTC.

Mudança de postura e uso dos recursos

Antes tratado como ativo estratégico, o Bitcoin passou a representar pressão financeira. O CEO Georges Karam já havia defendido a criptomoeda como reserva de valor relevante. No entanto, a empresa agora adota uma abordagem mais pragmática, priorizando preservação de caixa e redução de riscos.

Os recursos obtidos com a venda foram destinados à redução de dívidas conversíveis e ao financiamento de recompra de ações via American Depositary Shares. Dessa forma, a companhia diminuiu passivos, embora também sinalize um recuo parcial na estratégia de acumulação.

Mesmo após a liquidação, parte relevante das reservas permanece comprometida. Dos 1.114 BTC restantes, 817 estão vinculados como garantia de notas conversíveis, avaliados em cerca de US$ 62,3 milhões. Em contrapartida, a dívida associada soma aproximadamente US$ 35,9 milhões, refletindo a prática de sobrecolateralização comum no mercado cripto.

Perspectivas e reação do mercado

A previsão é que essa dívida seja quitada até 1º de junho de 2026. Após esse prazo, o Bitcoin remanescente ficará livre de restrições, permitindo à empresa decidir entre manter ou liquidar os ativos conforme sua estratégia.

O prejuízo líquido total atingiu US$ 54,3 milhões, equivalente a US$ 3,73 por ação. No mesmo período do ano anterior, a perda foi de US$ 7,3 milhões, ou US$ 0,29 por ação. Mesmo ao desconsiderar efeitos contábeis, como perdas com Bitcoin e compensações em ações, o prejuízo ajustado chegou a US$ 20,7 milhões.

Apesar do cenário adverso, a empresa destacou avanços operacionais, como aumento da carteira de pedidos e progresso em projetos. Além disso, houve maior demanda por soluções como Cat-M, Cat-1bis e 5G eRedCap. Novos transceptores de radiofrequência voltados para drones e defesa também ampliam o portfólio.

Ações em queda e incertezas estratégicas

No mercado, o sentimento permanece cauteloso. As ações da Sequans acumulam queda de 51,5% nos últimos seis meses e são negociadas a US$ 3,01. Esse desempenho reflete dúvidas dos investidores tanto sobre a estratégia envolvendo Bitcoin quanto sobre a recuperação operacional.

Atualmente, a empresa ocupa a 40ª posição entre companhias de capital aberto com reservas em Bitcoin. Ainda assim, permanece distante de líderes como a Strategy, que detém 818.334 BTC, e a Twenty One Capital, com 43.514 BTC.

Em conclusão, a venda de 1.025 BTC, somada à queda de receita e ao avanço dos prejuízos, marca um ponto de inflexão na estratégia da Sequans. A empresa passa a priorizar equilíbrio financeiro e sustentabilidade operacional, enquanto reavalia o papel do Bitcoin em seu balanço.

O autor:

Contabilidade de Criptomoedas