SoFiUSD estreia na Ethereum e na Solana com rendimento
A SoFi lançou no início de 2026 a stablecoin SoFiUSD, pareada ao dólar, com emissão simultânea nas redes Ethereum e Solana. Assim, uma instituição financeira listada em bolsa, com licença bancária e 15,4 milhões de membros, entrou de forma direta no mercado de pagamentos e reservas baseados em blockchain. O movimento ganhou força após a aprovação, no fim de 2025, da Stablecoin Transparency and Accountability Act nos Estados Unidos, que passou a oferecer um arcabouço regulatório mais claro para emissores desse tipo de ativo.
Ao contrário de projetos voltados primeiro ao público mais técnico de finanças descentralizadas, a SoFi integrou a SoFiUSD ao próprio aplicativo bancário. Dessa forma, a empresa busca alcançar clientes que já usam a plataforma para conta corrente, investimentos e crédito. Em outras palavras, a stablecoin funciona como uma extensão prática do saldo em dólar dentro do ecossistema da companhia.
A estratégia não depende apenas do interesse pelo mercado de criptomoedas. Afinal, contas de poupança e empréstimos pessoais enfrentam margens mais apertadas e concorrência intensa. Já uma stablecoin permite captar rendimento sobre as reservas que lastreiam o token, normalmente alocadas em Treasuries dos Estados Unidos e equivalentes de caixa. Além disso, amplia o engajamento da base atual. Esse avanço também se conecta à compra da Golden Pacific Bancorp, em 2022, operação que garantiu à SoFi uma licença bancária nacional.
Expansão da SoFi no setor de ativos digitais
Com essa estrutura, a SoFi passou a reunir capacidade regulatória e base técnica para emitir um dólar digital alinhado às exigências do mercado dos Estados Unidos. Além disso, a SoFiUSD existe de forma nativa em blockchain, e não apenas como saldo interno. Por isso, o ativo pode circular fora do aplicativo e interagir com protocolos on-chain.
Na prática, a emissão na Ethereum e na Solana abre espaço para uso em mercados de empréstimo, exchanges descentralizadas e agregadores de rendimento. A SoFi não afirmou que criará um ecossistema próprio de DeFi. No entanto, deixou aberta a possibilidade de o usuário retirar a stablecoin da plataforma e movê-la para carteiras de autocustódia. Nesse sentido, a empresa segue uma tendência de 2026 em que a blockchain opera como infraestrutura invisível para o cliente final.
Ao mesmo tempo, usuários menos técnicos podem manter SoFiUSD dentro do aplicativo sem lidar com taxas de gas ou endereços de carteira. Já os usuários avançados ganham a opção de usar o ativo em ambientes on-chain. Documentos regulatórios indicam que a companhia ainda pretende oferecer operações de crédito denominadas em stablecoin até o quarto trimestre de 2026.
Distribuição para 15,4 milhões de membros
O maior diferencial da SoFi está na distribuição. A empresa conta com 15,4 milhões de membros que já usam seus serviços para salário, investimentos e crédito. Assim, a SoFiUSD começou a ser ofertada como opção padrão dentro da conta SoFi Money, com conversão entre USD e SoFiUSD em um toque.
No lançamento, os saldos em SoFiUSD receberão rendimento promocional de 4,2% ao ano, financiado pela receita gerada pelas reservas em Treasuries. Esse retorno supera o de muitas contas de alta rentabilidade. Além disso, a companhia praticamente elimina custo de aquisição de usuário, já que não precisa convencer o cliente a instalar outro aplicativo ou aprender uma nova interface. Como resultado, o modelo reforça a convergência entre banco digital e infraestrutura blockchain.
Como a SoFiUSD opera na Ethereum e na Solana
A escolha pela Ethereum e pela Solana reflete uma divisão clara de funções. De um lado, a Ethereum segue como principal camada para stablecoins com foco institucional. De outro, a Solana oferece transações rápidas e baratas para pagamentos do dia a dia. Assim, a SoFi tenta atender fluxos de maior segurança e liquidez, bem como operações de varejo com menor custo.
Ethereum como camada institucional
Na Ethereum, a SoFiUSD foi emitida no padrão ERC-20. O contrato inteligente inclui mecanismo de bloqueio de endereços, recurso comum em stablecoins reguladas, e suporte ao ERC-2612. Esse padrão permite autorizações sem necessidade de gas em certas interações. Além disso, a SoFi recorreu à Fireblocks para custódia institucional e à Chainlink para integração de oráculos de preço.
Essa presença na Ethereum também posiciona a SoFiUSD para eventual integração com a tokenização de ativos do mundo real. Protocolos como Ondo Finance e Centrifuge já desenvolvem produtos lastreados em Treasuries nessa rede. Portanto, a stablecoin da SoFi pode funcionar como par base nesse ambiente. A licença bancária da empresa ainda permite a guarda direta dos ativos de reserva, o que reduz a dependência de custodiante terceirizado.
Solana para pagamentos de baixo custo
Na Solana, a SoFiUSD usa o padrão SPL e foi integrada ao Solana Pay, que avançou em adoção comercial por meio de parcerias com Shopify e Stripe. A expectativa é que essa rede concentre transferências entre usuários e pagamentos de menor valor, graças à finalidade em menos de um segundo e ao custo geralmente inferior a US$ 0,01 por transação.
Ademais, a equipe de engenharia da SoFi desenvolveu uma ponte entre Ethereum e Solana com o protocolo de mensagens da Wormhole. A movimentação entre as redes dentro do aplicativo opera com janela de liquidação de 15 minutos e exige autorização por múltiplas assinaturas da equipe de tesouraria.
Reservas, regulação e disputa com PYUSD e USDC
A posição regulatória da SoFi é um dos pontos centrais do lançamento. Como banco nacional supervisionado pelo Office of the Comptroller of the Currency, a empresa já cumpre exigências de capital e proteção ao consumidor. Além disso, a SoFiUSD foi estruturada para atender à Stablecoin Transparency and Accountability Act. A norma exige lastro de 1 para 1, atestados mensais por empresa de contabilidade registrada e garantia de resgate em até dois dias úteis.
As reservas ficam em contas segregadas no Federal Reserve Bank of San Francisco. Já os resgates usam os sistemas ACH e wire, já empregados nos saques regulares da plataforma. A SoFi também pediu reconhecimento sob a estrutura MiCA da União Europeia. Com isso, pode abrir caminho para operar a SoFiUSD no mercado europeu.
Lastro e potencial de receita
Cada token SoFiUSD é lastreado por 85% em Treasuries de curto prazo dos Estados Unidos e 15% em caixa mantido em instituições seguradas pela Federal Deposit Insurance Corporation. A composição das reservas é publicada diariamente pela SoFi e verificada mensalmente pela Deloitte por meio de um processo de atestação SOC 2 Type II.
Esse desenho tem efeito financeiro direto. Com rendimentos de Treasuries próximos de 4,5%, um volume de US$ 1 bilhão em SoFiUSD em circulação poderia gerar cerca de US$ 45 milhões por ano em receita bruta sobre reservas. Ainda assim, mesmo após pagar o rendimento promocional de 4,2% aos usuários no lançamento, a companhia preserva spread positivo.
Por fim, a entrada da SoFi amplia a disputa com o PYUSD, do PayPal, e com o USDC, da Circle. O PYUSD, lançado em 2023, alcançou cerca de US$ 1,8 bilhão em circulação, enquanto o USDC seguia acima de US$ 45 bilhões. A SoFiUSD começa do zero, mas chega com uma vantagem relevante de distribuição em um aplicativo bancário já consolidado.