SpaceX: derivativos pré-IPO movem US$ 1 bi
Operadores do mercado de criptomoedas transformaram a aguardada abertura de capital da SpaceX em um mercado paralelo que opera 24 horas por dia. Nos últimos três dias, mais de US$ 1 bilhão passou por contratos futuros perpétuos ligados à empresa de Elon Musk. Assim, parte dos investidores tenta antecipar o comportamento de um dos maiores IPOs já vistos em Wall Street.
O movimento ocorre enquanto investidores teriam sobrescrito várias vezes a oferta, com alocações limitadas para o varejo. Como muitos compradores não têm acesso garantido às ações no processo oficial, eles buscaram exposição por meio de instrumentos sintéticos negociados em plataformas de ativos digitais.
SPCX acelera antes da estreia pública
Antes de as ações começarem a negociar em bolsa, corretoras e plataformas cripto passaram a oferecer uma referência quase imediata de preço. Dados da CoinGlass mostram que o contrato perpétuo SPCX, atrelado à avaliação pré-IPO da SpaceX, registrou mais de US$ 1 bilhão em volume nas últimas 72 horas. Além disso, desde 30 de maio, o volume acumulado já superou US$ 2,6 bilhões, com interesse em aberto ao redor de US$ 363 milhões.

Origem: CoinGlass
Diferentemente das opções tradicionais sobre ações, os futuros perpétuos não têm vencimento. Por isso, os operadores podem manter posições por tempo indeterminado. Ainda assim, eles precisam lidar com pagamentos de funding e com risco de liquidação quando o preço se move com força contra a posição.
Essa estrutura costuma atrair investidores acostumados com alavancagem elevada e oscilação contínua. Inicialmente, o contrato SPCX ganhou força na Hyperliquid. Em seguida, a atividade avançou para além das finanças descentralizadas. A Binance, por exemplo, já responde por parcela relevante desse mercado. Dessa forma, o produto sintético passou a funcionar como centro de descoberta de preços antes mesmo da existência da ação no pregão público.
Apostas de alta e de baixa ganham espaço
Ao mesmo tempo, o mercado também recebe operações vendidas. A Arkham Intelligence afirmou, em publicação no X, que um operador que usa o identificador “wenyu8888888” abriu uma posição short de US$ 5,7 milhões no SPCX, com alavancagem de 2x. Segundo a empresa, essa é a maior aposta vendida em SpaceX monitorada até agora.
Esse tipo de posição mostra que o contrato sintético também virou espaço para investidores que apostam na redução do prêmio do IPO assim que a negociação oficial começar. No entanto, o instrumento não concede participação societária, direito a voto nem qualquer reivindicação sobre ações da SpaceX.
Prêmio do pré-IPO encolhe, mas segue elevado
O mercado futuro ainda sinaliza uma abertura acima do preço oficial. A companhia precificou a oferta em US$ 135 por ação, o que atribui à SpaceX uma avaliação estimada entre US$ 1,75 trilhão e US$ 1,8 trilhão. Enquanto isso, o contrato SPCX gira em torno de US$ 162. Em outras palavras, o mercado sintético embute um prêmio próximo de 17% sobre o valor da listagem.
Apesar disso, a diferença atual diminuiu em relação aos primeiros dias do contrato. Naquele momento, a compra especulativa levou as cotações para acima de US$ 220 e, em certo ponto, perto de US$ 230. Assim, os investidores chegaram a projetar um salto muito mais agressivo no primeiro dia.
A compressão desse prêmio sugere maior seletividade. Ainda assim, a demanda continua extremamente forte. Os coordenadores da oferta teriam reunido centenas de bilhões de dólares em interesse para uma captação planejada de US$ 75 bilhões. Como a estrutura usa preço fixo, os bancos têm menos espaço para reajustar o intervalo final antes da estreia. Portanto, os investidores precisam aceitar os US$ 135 ou abandonar a operação.
Além disso, a procura do varejo ampliou a pressão. Embora a SpaceX tenha reservado uma fatia maior do que o usual para investidores individuais, a escala da demanda indica que muitos compradores devem receber apenas parte do volume solicitado. Como resultado, parte dessa frustração migra para os mercados sintéticos.
Histórico de grandes IPOs recomenda cautela
A busca por exposição à SpaceX esbarra em um alerta conhecido do mercado. Afinal, até empresas fortes podem gerar perdas relevantes para quem compra cedo demais, sobretudo quando estreiam com avaliações agressivas.
Charlie Bilello, estrategista-chefe de mercado da Creative Planning, afirmou no X que um erro recorrente em IPOs muito aguardados é confundir um grande negócio com um grande investimento a qualquer preço. Segundo sua análise, a listagem mediana perde 31% no primeiro ano e sofre uma queda máxima de 53% entre o topo e o fundo nesse período.

Origem: Charlie Bilello no X
O debate ganhou força porque parte do mercado compara SpaceX, OpenAI e Anthropic aos primeiros anos de Amazon, Google e Meta nos mercados públicos. No entanto, Jim Chanos rejeitou essa comparação. Em publicação no X, o veterano vendedor a descoberto afirmou que o descompasso de avaliação é grande demais para ser ignorado. Segundo ele, a Amazon abriu capital em 1997 avaliada em cerca de US$ 450 milhões, perto de três vezes a receita. O Google estreou em 2004 com aproximadamente US$ 23 bilhões, ao redor de sete vezes a receita. Já a Meta chegou à bolsa em 2012 valendo perto de US$ 104 bilhões, em torno de 20 vezes a receita, e ainda assim caiu fortemente após a listagem.
Na visão de Chanos, a SpaceX já parte de um valor de mercado muito acima desses pontos iniciais. Portanto, haveria menos espaço para expansão de múltiplos caso o crescimento decepcione. Em outra publicação no X, ele também citou a Uber. Quando estreou em 2019, a empresa apresentou um mercado total endereçável acima de US$ 12 trilhões. Hoje, sua capitalização gira em torno de US$ 150 bilhões, pouco mais de 1% dessa oportunidade projetada.
SEC entra no foco com pressão de Elizabeth Warren
O tamanho da operação também atraiu atenção em Washington. Elizabeth Warren, democrata mais graduada no Comitê Bancário do Senado dos Estados Unidos, pediu à Securities and Exchange Commission (SEC) que adie a oferta até que reguladores tratem de riscos para investidores de varejo e para a estrutura do mercado.
Em carta enviada ao presidente da SEC, Paul Atkins, Warren alertou que uma listagem da SpaceX nesse porte pode criar riscos incomuns para os mercados públicos. Segundo a senadora, as preocupações envolvem avaliação, direitos dos acionistas e estrutura de governança.
“Estas não são circunstâncias normais: uma série de fatores adicionais agrava as preocupações e exige ação da SEC para cumprir seus mandatos de proteção ao investidor e integridade do mercado por meio do adiamento do IPO da SpaceX.”
Além disso, Warren levantou dúvidas sobre investidores passivos. Em uma avaliação próxima de US$ 1,8 trilhão, a SpaceX provavelmente se tornaria um componente relevante de índices de mercado após a estreia. Dessa maneira, milhões de investidores em fundos indexados e planos de aposentadoria poderiam ganhar exposição à empresa mesmo sem comprar o papel diretamente.
A pressão política não significa, necessariamente, atraso na operação. Ainda assim, a carta amplia o escrutínio sobre a oferta e desloca o foco do simples debate sobre uma abertura acima de US$ 135 para riscos jurídicos, de governança e de avaliação. Nesse meio tempo, os dados apontam mais de US$ 1 bilhão em volume recente no SPCX, interesse em aberto ao redor de US$ 363 milhões e prêmio implícito perto de 17%. Ao mesmo tempo, analistas e reguladores reforçam a cautela diante de uma avaliação entre US$ 1,75 trilhão e US$ 1,8 trilhão.