SPDR pede ETF com estratégia 90/10 da UC Investments

A State Street Global Advisors, gestora da linha de ETFs SPDR, protocolou um pedido para lançar um fundo negociado em bolsa atrelado ao UC Investments 90/10 Endowment Strategy Index. Assim, a proposta levaria ao investidor de varejo uma versão em ETF da filosofia de alocação adotada pela University of California.

Na prática, a estrutura é direta. O produto teria cerca de 90% da carteira em ações e 10% em títulos de renda fixa ou caixa. Além disso, a estratégia seguiria um índice, com gestão passiva e sem exposição a hedge funds, private equity ou venture capital. Essas classes costumam aparecer no modelo tradicional de endowments universitários.

Esse desenho chama atenção porque contrasta com a visão institucional mais difundida nas últimas décadas. Afinal, muitos grandes endowments ganharam notoriedade ao combinar ativos públicos com participações relevantes em mercados privados e ilíquidos. Nesse sentido, a SPDR aposta em uma leitura oposta, com mais transparência e custos potencialmente menores.

Como funciona a estratégia de investimentos da UC

A operação de investimentos da University of California administra entre US$ 180 bilhões e US$ 190 bilhões em ativos totais. Dentro desse universo, o endowment combinado soma aproximadamente US$ 29,5 bilhões. Desse total, US$ 22,6 bilhões pertencem ao General Endowment Pool, enquanto US$ 6,9 bilhões ficam no Blue and Gold Endowment Pool.

Sob a liderança de Jagdeep Singh Bachher, diretor de investimentos, a UC Investments adotou um caminho diferente daquele seguido por parte relevante do mercado institucional. Enquanto Harvard, Yale e Stanford ficaram conhecidas por carteiras com grande peso em investimentos alternativos, a University of California privilegiou ações negociadas em bolsa, renda fixa e custos mais baixos.

O caso mais emblemático dessa filosofia aparece no Blue and Gold Endowment Pool. A UC lançou o veículo em 2019 com apenas US$ 250 milhões. A carteira segue uma alocação de 80% em ações e 20% em renda fixa. Desde então, o patrimônio cresceu para algo próximo de US$ 7 bilhões. Além disso, no ano fiscal de 2024-25, o fundo entregou retorno de 15,8%.

O que muda no ETF proposto pela SPDR

O novo ETF avança um passo na mesma direção. Em vez da divisão 80/20 do Blue and Gold Endowment Pool, o índice proposto trabalha com uma carteira 90/10. Dessa forma, o peso de ações sobe ainda mais. Ao mesmo tempo, a parcela defensiva encolhe para um colchão relativamente pequeno em renda fixa ou caixa.

A documentação ainda não informou ticker, taxa de despesas nem data prevista para o lançamento. Ainda assim, a iniciativa reforça a tentativa de transformar uma abordagem institucional de grande escala em um produto acessível ao varejo. Ao mesmo tempo, ela sugere que uma carteira universitária relevante pode ganhar tradução em um ETF passivo e de construção direta.

A relação entre State Street Global Advisors e UC Investments não começou agora. Anteriormente, as duas instituições já trabalharam juntas em produtos ligados a investimento sustentável. Esse alinhamento conversa com a política de longa data da University of California de desinvestimento em combustíveis fósseis e tabaco, descrita pela própria UC Investments.

Por que o pedido da SPDR chama atenção

O movimento sinaliza um questionamento direto ao modelo de endowment popularizado por David Swensen, da Yale. Por décadas, essa referência defendeu forte presença de private equity, venture capital e outras classes alternativas. Contudo, a proposta da SPDR segue no sentido contrário e prioriza mercados públicos.

Em outras palavras, a tese implícita é simples. Uma carteira institucional também pode buscar desempenho competitivo com menos camadas, mais liquidez e maior clareza para o investidor. Além disso, a ausência de estruturas complexas reduz barreiras de entendimento para quem investe por meio de ETFs listados.

Isso não significa, porém, uma estratégia conservadora. Pelo contrário, uma alocação com 90% em ações é agressiva por natureza. Portanto, o fundo tende a sofrer mais em correções amplas do mercado acionário. Em um ambiente como o de 2022, por exemplo, quando ações e títulos caíram ao mesmo tempo, os 10% em renda fixa teriam oferecido proteção limitada.

Risco, perfil do investidor e ausência de ativos digitais

Para o investidor, o principal ponto de atenção está no perfil de risco. Embora a construção pareça simples, a concentração em ações amplia a volatilidade e eleva a sensibilidade a ciclos negativos. Assim, o ETF pode atrair quem busca crescimento de longo prazo. No entanto, tende a ser menos adequado para perfis defensivos.

Outro dado relevante envolve a composição temática da estratégia. Os produtos centrais de endowment da University of California não indicam envolvimento direto com ativos digitais. Desse modo, o índice 90/10 fica ancorado em classes tradicionais, especialmente ações e renda fixa, sem exposição direta ao mercado de criptomoedas.

Em suma, o pedido da SPDR combina dois elementos centrais da UC Investments nos últimos anos: preferência por mercados públicos e rejeição a estruturas excessivamente complexas. Ao mesmo tempo, os números mostram que essa simplicidade convive com apetite elevado por risco. A University of California administra entre US$ 180 bilhões e US$ 190 bilhões, possui um endowment combinado de US$ 29,5 bilhões e viu o Blue and Gold Endowment Pool saltar de US$ 250 milhões, em 2019, para cerca de US$ 7 bilhões, com retorno de 15,8% no ano fiscal de 2024-25.