Spreads de stablecoin disparam na África
O uso de stablecoin para remessas cresce na África, porém os custos seguem elevados em diversos mercados. Dados divulgados pela Borderless.xyz mostram que o spread mediano das conversões para moedas locais alcançou quase 300 pontos base em janeiro, cerca de 3%. Esse número supera com folga a média da América Latina, próxima de 1,3%, e da Ásia, em torno de 0,07%. Assim, as remessas ficam mais caras justamente onde a tecnologia deveria ampliar o acesso financeiro.
Esse cenário deixa claro que o custo final depende do mercado doméstico. Mesmo que o envio on-chain seja barato, a conversão para moeda fiduciária determina o valor recebido por trabalhadores e famílias que dependem desses recursos. Além disso, a falta de liquidez em algumas regiões intensifica a diferença entre o preço de compra e venda.
Custos variam entre os mercados africanos
A variação de spreads dentro do continente é ampla. A África do Sul apresentou um dos menores índices, em torno de 1,5%, impulsionado por liquidez elevada e forte concorrência entre provedores. Mercados mais sólidos tendem a equilibrar os preços, reduzindo o custo para o usuário.
No entanto, países com pouca oferta de serviços enfrentam um cenário oposto. Em Botsuana, a mediana do spread chegou a quase 19,4% em janeiro, embora tenha caído levemente no fim do mês. Já a República do Congo registrou mais de 13%. Esses números reforçam que o problema não se limita a casos isolados, pois o estudo avaliou 66 corredores cambiais e quase 94 mil observações.

Médias regionais de spreads em transações com stablecoin. Fonte: Borderless.xyz
Mercados competitivos reduzem o spread
Segundo o levantamento, mercados competitivos apresentam spreads entre 1,5% e 4%. Já regiões dominadas por um único operador podem ultrapassar 13%. Portanto, o spread reflete a diferença entre o preço de compra e venda e funciona como o custo efetivo de execução para o usuário.
Os dados mostram que as maiores barreiras aparecem fora do ambiente blockchain. A limitação de liquidez local e o pequeno número de empresas responsáveis pela conversão pesam diretamente no custo final pago pelo usuário que precisa trocar stablecoin por moeda local.

Comparação entre taxas mid-market de stablecoin e taxas tradicionais por moeda. Fonte: Borderless.xyz
Comparação com o câmbio tradicional
A Borderless.xyz também comparou as taxas mid-market das stablecoins com as taxas interbancárias. Em uma amostra global de 33 moedas, a diferença mediana foi de cinco pontos base, cerca de 0,05%. Além disso, esse alinhamento mostra que o mercado opera de forma semelhante ao sistema bancário tradicional quando há liquidez adequada.
Na África, porém, o desvio mediano atingiu 120 pontos base, cerca de 1,2%. Esse valor ajuda a explicar por que o uso de stablecoin nem sempre reduz custos em determinados corredores de remessa, mesmo com processos de transferência mais rápidos.
BTCUSD negociado a US$67.018 no gráfico de 24 horas. Fonte: TradingView
Impacto direto para quem envia e recebe
Apesar dos desafios, especialistas afirmam que as stablecoins ainda diminuem despesas em várias regiões africanas. Serviços tradicionais podem cobrar até US$6 para cada US$100 enviados, enquanto soluções digitais reduzem parte desse custo. No entanto, a economia depende da eficiência dos provedores locais. Onde existe estrutura consolidada, o usuário é beneficiado. Onde o mercado é restrito, o custo permanece alto.
Portanto, o estudo reforça a necessidade de ampliar a concorrência e fortalecer a liquidez doméstica. Embora a tecnologia permita operações rápidas e acessíveis, a última etapa da conversão continua determinante. Assim, o spread final define quanto as famílias recebem e se o uso de stablecoin realmente compensa em cada região africana.