Stablecoins concentram 94% do trading em pesos argentinos
As stablecoins atreladas ao dólar concentram 94% do volume de negociação de criptomoedas denominado em pesos argentinos. Segundo dados da Artemis citados pela a16z crypto, esse percentual supera o registrado entre as principais divisas analisadas.
O levantamento, publicado em 30 de agosto de 2026, examinou a adoção de criptomoedas na América Latina. Nesse contexto, cerca de um em cada cinco argentinos usa criptomoedas, uma das maiores taxas da região. Além disso, os downloads dos 15 principais aplicativos do setor cresceram 93% em 2024, na comparação anual. Para a a16z crypto, o avanço indica uma mudança da proteção pontual contra a inflação para o uso habitual de stablecoins.
Preferência pelo dólar reflete desconfiança no peso
A preferência dos argentinos pelo dólar antecede as stablecoins em várias décadas. Em 2001 e 2002, o governo congelou depósitos bancários durante uma grave crise econômica. Na época, o Decreto 214/2002 converteu compulsoriamente para pesos as contas mantidas em dólar.
Depois, o colapso da paridade cambial aprofundou as perdas da população. A cotação passou de um peso por dólar para quase quatro pesos em pouco tempo. Com isso, o peso perdeu cerca de três quartos de seu valor perante a divisa americana.
Como consequência, a crise aumentou a desconfiança nos bancos e na própria divisa argentina. Muitas famílias passaram a guardar reservas em cédulas de dólar fora do sistema financeiro. Esse comportamento também influenciou a posterior adoção de alternativas digitais.
Décadas depois, as stablecoins ganharam força com o restabelecimento dos controles cambiais em 2019. Em poucos meses, as autoridades limitaram as compras individuais de dólares a US$ 200 mensais. Além do limite, regras de elegibilidade excluíram diversos residentes.
Nesse cenário, as stablecoins atreladas ao dólar ofereceram uma alternativa ao mercado oficial restrito. Em 2023, os controles de capital elevaram para mais de 100% a diferença entre as cotações oficial e paralela, conforme a análise da a16z crypto. Enquanto isso, esses instrumentos continuaram disponíveis para negociação a qualquer momento. Por essa razão, Flores resumiu no relatório: na Argentina, “comprar criptomoedas significa comprar dólares”.
Uso permanece relevante com a queda da inflação
Durante o pico inflacionário, as stablecoins também conquistaram uma parcela crescente dos pagamentos feitos a prestadores de serviços. Em abril de 2024, a inflação anual argentina atingiu 289%. No mesmo período, aumentou a proporção de profissionais no país que recebiam pagamentos em USDC.
A Deel forneceu os dados de folha de pagamento usados no levantamento. Com base em janeiro de 2024, os números mostram que os pagamentos em USDC e a inflação seguiram trajetórias semelhantes por algum tempo. Em julho de 2026, ambas as métricas estavam próximas de um quinto dos respectivos picos.
Paralelamente, diminuíram as diferenças cambiais que tornavam os dólares digitais mais caros que aqueles disponíveis no mercado oficial. Em abril de 2025, a Argentina eliminou a maior parte das restrições para a compra de dólares. Com a medida, as cotações oficial e paralela convergiram.
Em 28 de agosto de 2026, um dólar digital custava cerca de 4% mais que outro adquirido no mercado oficial. Mesmo assim, o uso de stablecoins permaneceu relevante, apesar da inflação menor e da maior facilidade para comprar dólares.
Downloads da carteira Lemon continuam crescendo
Os downloads da Lemon, uma das maiores carteiras de criptomoedas da Argentina, avançaram em todos os trimestres analisados. Esse crescimento ocorreu enquanto a inflação mensal recuava de 25,5% para 2,1%. Enquanto isso, a procura pelo aplicativo manteve sua trajetória de alta.
Portanto, os dados indicam que as stablecoins deixaram de funcionar apenas como proteção emergencial contra a inflação. Em outras palavras, os dólares digitais se consolidaram como parte do cotidiano de usuários argentinos.