Stablecoins em lira superam euro na Zodia Markets
A Zodia Markets, subsidiária de ativos digitais controlada majoritariamente pelo Standard Chartered, processou US$ 3,4 bilhões em transações com stablecoins atreladas à lira turca em 2025. Com isso, a moeda se tornou a segunda mais usada nas operações da empresa. Ela ficou atrás apenas do dólar e à frente do euro e das demais moedas do G10.
Os tokens indexados ao dólar, liderados por Tether e USDC, mantiveram ampla vantagem, com US$ 110,5 bilhões em transações. Em contrapartida, as stablecoins atreladas ao euro ficaram apenas na faixa de dezenas de milhões de dólares. O contraste chama atenção porque a economia da zona do euro é muito maior do que a da Turquia.
Além disso, o resultado pressiona a tese europeia de expansão do euro no ambiente on-chain. Enquanto um consórcio de bancos prepara uma stablecoin regulada em euro sob as regras do MiCA, o Banco Central Europeu avança no projeto do euro digital. Ainda assim, o caso da lira mostra que regulação e escala econômica, por si só, não garantem adoção.
Uso cresce onde pagamentos enfrentam mais atrito
Nick Philpott, cofundador e diretor executivo interino da Zodia Markets, explicou que os clientes preferiram stablecoins atreladas à lira ao sistema bancário correspondente. A escolha ocorreu porque os tokens liquidavam mais rápido, com menor custo, mais previsibilidade e conversão imediata após o recebimento.
Em outras palavras, a demanda nasceu em um corredor específico de pagamentos internacionais. Nesse ambiente, a lentidão operacional, as tarifas e a incerteza na liquidação abriram espaço para a tokenização da moeda fiduciária. Assim, a stablecoin não venceu por prestígio monetário, mas por eficiência prática.
No caso do euro, porém, o contexto é diferente. A infraestrutura bancária da zona do euro já oferece transferências rápidas e baratas para grande parte dos usuários. Por isso, uma stablecoin em euro resolve um problema que muitos participantes não enfrentam no dia a dia.
Ao mesmo tempo, o dólar preserva sua posição como principal unidade de conta do mercado de criptomoedas. Dessa forma, as stablecoins em euro ficam pressionadas entre um sistema bancário já eficiente e uma economia on-chain que ainda gira majoritariamente em torno do dólar.
Europa transaciona muito, mas emite pouco em euro
Esse desequilíbrio também aparece nos números mais amplos do setor. A Europa responde por cerca de 38% das transações globais com stablecoins. No entanto, os tokens denominados em euro representam aproximadamente 0,3% da oferta total desse mercado. Portanto, o entrave parece estar menos na regulação e mais na demanda e na distribuição.
De fato, os dados indicam que relevância geopolítica não se traduz automaticamente em uso on-chain. Afinal, usuários e empresas adotam instrumentos que reduzem custo, tempo e risco operacional. Quando a infraestrutura tradicional já atende bem, o incentivo para migrar cai de forma relevante.
Dólar vira reserva, enquanto lira atua como ponte
O desempenho da lira se encaixa em uma divisão mais ampla do mercado de stablecoins. No ano passado, a equipe de pesquisa do Standard Chartered, liderada por Geoffrey Kendrick, estimou que até US$ 1 trilhão pode migrar de depósitos bancários em mercados emergentes para stablecoins ao longo de três anos. Nesse cenário, tokens em dólar absorveriam poupança de países expostos a estresse cambial.
A Turquia aparece entre as 16 economias de alto risco destacadas pelo banco, ao lado de Egito, Paquistão e Nigéria. Nesses mercados, stablecoins em dólar funcionam como substitutas de contas bancárias em dólar. Ou seja, elas servem como reserva de valor fora da moeda local enfraquecida.
Já os tokens em moeda local cumprem outro papel. Eles funcionam como camada de liquidação entre o dinheiro doméstico e a liquidez global do mercado cripto. Foi exatamente isso que o uso elevado das stablecoins lastreadas em lira revelou dentro da Zodia Markets.
Os clientes usavam esses ativos para levar moeda fiduciária turca até o sistema de liquidação em dólar da empresa. Assim, a lira alcançou a segunda posição em uso sem competir diretamente com o dólar como reserva de valor. Nesse arranjo, o dólar continuou como destino principal do capital, enquanto a lira operou como porta de entrada.
Turquia reforça conexão com emissores globais
A própria indústria começou a estruturar essa ponte de forma mais direta. Recentemente, a Ripple levou seu token RLUSD, lastreado em dólar, para a Turquia por meio de parcerias com BiLira, Bitexen e Bitlo. Nesse arranjo, a stablecoin TRYB da BiLira conta com reservas mantidas em bancos locais turcos e integração à maior mesa local de balcão do país.
A Turquia processa perto de US$ 200 bilhões em volume anual de criptomoedas. Por conseguinte, sua infraestrutura doméstica ganhou peso real na conexão com emissores globais. De maneira semelhante, o mesmo padrão começa a surgir em outras economias vulneráveis.
O Fundo Monetário Internacional informou nesta semana que a Nigéria se tornou o principal corredor de stablecoins transfronteiriças da África Subsaariana, com cerca de US$ 59 bilhões em entradas. Assim, o avanço reforça preocupações com a dolarização digital em países de moeda frágil.
Expansão da lira amplia alerta regulatório
O crescimento das stablecoins em lira também abre uma frente relevante para reguladores. As reservas que lastreiam esses tokens ficam dentro de bancos turcos. Dessa maneira, a estabilidade dessas moedas digitais passa a depender mais diretamente dos balanços das instituições financeiras locais.
Além disso, a conversão rápida entre tokens em lira e em dólar pode acelerar saídas de recursos dos bancos durante períodos de estresse cambial. Por consequência, supervisores podem enfrentar fluxos mais velozes do que aqueles observados no sistema tradicional.
Uma stablecoin em moeda local, quando vira infraestrutura relevante de pagamentos, também influencia a transmissão monetária do banco central. Esse ponto já apareceu em análises anteriores do Fundo Monetário Internacional, sobretudo quando tokens em dólar começam a deslocar o uso da moeda doméstica.
No caso europeu, o esforço institucional tenta dar relevância on-chain ao euro por seu peso geopolítico e por sua importância nos sistemas de liquidação digitais do futuro. Em contraste, a experiência da lira seguiu o caminho oposto. O uso surgiu porque residentes e empresas precisavam mover dinheiro com menos atrito e com acesso mais eficiente à liquidez em dólar.
Os dados da Zodia Markets deixam o contraste direto. Em 2025, a empresa registrou US$ 3,4 bilhões em transações com stablecoins de lira, enquanto os tokens em euro permaneceram na faixa de dezenas de milhões. Mesmo com a Europa respondendo por cerca de 38% das transações globais com stablecoins, a participação do euro segue limitada a aproximadamente 0,3% da oferta total.