Stablecoins: Mercado Bitcoin e Itaú avaliam tokenização
O avanço das stablecoins pode abrir novas aplicações no sistema financeiro brasileiro. Contudo, esse desenvolvimento exige uma infraestrutura capaz de conectar instrumentos digitais, moedas nacionais e serviços financeiros tradicionais. Executivos do setor discutiram os principais desafios dessa integração.
O tema guiou o painel “Uma nova janela se abre com stablecoins”, realizado na quarta-feira (26), durante a Febraban Tech 2026, em São Paulo. Fabrício Tota, vice-presidente de Negócios Cripto do Mercado Bitcoin, participou do debate. Daniel Mendez-Delgado, consultor de políticas do Institute of International Finance, também integrou o painel.
Além deles, participaram Driss Temsamani, chefe de Digital para as Américas do Citi, e Larissa Moreira, gerente de Produtos Digital Assets do Itaú Unibanco. Raphael Palacio Soares, chefe de TI para Ativos Digitais do BTG Pactual, completou o grupo. Claudia Mancini, fundadora e editora-chefe do Blocknews, mediou a conversa.
Infraestrutura em reais sustenta a expansão
Para Tota, a tokenização no Brasil depende de uma infraestrutura de liquidação denominada em reais. Hoje, as stablecoins vinculadas ao dólar dominam esse mercado. Porém, instrumentos brasileiros precisam de soluções compatíveis com a moeda usada em sua denominação.
❝ Quando você fala de tokenização, precisa de uma stablecoin de reais. Não faz sentido liquidar um ativo em reais contra uma stablecoin de dólar. O Pix é incrível, mas não conversa diretamente com esse ambiente tokenizado ❞, afirmou Tota.
Nesse contexto, o executivo apontou a liquidação em moeda local como um elemento central para o avanço do setor. A predominância de instrumentos vinculados ao dólar não atende automaticamente às operações denominadas em reais. Por isso, a infraestrutura local precisa acompanhar o crescimento desses mercados.
Usos corporativos favorecem a coexistência
Larissa Moreira afirmou que o mercado já testa aplicações destinadas a aumentar a eficiência operacional. Ao mesmo tempo, a executiva identificou oportunidades em gestão de tesouraria e caixa. Essas áreas podem ampliar o uso corporativo das stablecoins.
❝ No curto prazo, já observamos o mercado experimentando bastante em cross border, mas em gestão de tesouraria e caixa devemos conseguir destravar ainda mais valor ❞, disse Larissa.
Segundo a executiva, stablecoins, depósitos tokenizados e outras soluções não precisam disputar a mesma função. “A palavra-chave neste momento é coexistência”, afirmou. Dessa maneira, cada instrumento pode atender a necessidades específicas dentro do sistema financeiro.
Daniel Mendez-Delgado, do Institute of International Finance, avaliou que a adoção também dependerá das características de cada mercado. Países com meios domésticos rápidos e consolidados enfrentam desafios diferentes daqueles observados em operações internacionais. Assim, o potencial das soluções varia conforme a infraestrutura disponível.
❝ Existe uma diferença importante entre o uso doméstico e o transfronteiriço. Em muitos mercados, o consumidor já tem sistemas de pagamento eficientes e amplamente utilizados ❞, explicou Mendez-Delgado.
Interoperabilidade evita ambientes financeiros isolados
Driss Temsamani afirmou que o debate precisa avançar sobre a infraestrutura responsável por sustentar essas soluções. Para o executivo do Citi, a interoperabilidade será essencial. Caso contrário, o mercado poderá criar novos ambientes fechados e desconectados.
❝ Precisamos discutir se a infraestrutura deve estar do lado público e a proposta de valor no privado. Se queremos construir algo inclusivo e interoperável, essa questão precisa ser resolvida ❞, disse Temsamani.
Na prática, a integração precisa alcançar tanto participantes tradicionais quanto empresas nativas do setor de ativos digitais. Uma estrutura interoperável também pode facilitar a circulação entre diferentes plataformas. Com isso, instituições financeiras evitariam a fragmentação de serviços e de fluxos de liquidação.
Regulação pode ampliar a presença dos bancos
Ao projetar os próximos 12 meses, Raphael Palacio Soares avaliou que regras mais claras devem acelerar a migração de fluxos institucionais. O executivo também espera uma ampliação da atuação dos bancos em ativos digitais. Esse movimento pode aproximar novas infraestruturas dos mercados financeiros tradicionais.
Na avaliação de Soares, stablecoins e tokenização devem ganhar espaço como infraestrutura do mercado financeiro. Esses instrumentos podem funcionar como uma perna de liquidação para outros produtos. Portanto, seu papel não ficaria restrito à oferta de produtos isolados.
Tota também espera mudanças na composição do setor nos próximos meses. “A regulação vai passar uma linha. Acredito que vamos ter um ambiente de ativos digitais em que alguns poucos players nativos estarão inseridos e com a presença de muitos participantes tradicionais”, declarou.
O painel indicou que a expansão das stablecoins no Brasil depende de três fatores centrais. O setor precisa de instrumentos em reais, infraestrutura interoperável e maior clareza regulatória. Nesse cenário, bancos e empresas nativas de ativos digitais podem dividir espaço no mercado.