Suspeita de Pirâmide Financeira, Minerworld lança novo sistema de Captação de Pessoas, nova Moeda e Plano de Quitação

Era uma Mineradora…

Com sede em Campo Grande-MS, a empresa que diz ser uma mineradora de Bitcoins e outras criptomoedas, passa por problemas com os pagamentos dos afiliados.

Desde outubro do ano passado, os investidores (afiliados) não têm recebido o retorno dos seus investimentos.

Apesar de sempre se apresentar como uma mineradora, a empresa só lança sua mineradora no Paraguai oficialmente no começo de 2018 e com uma quantidade muito aquém do esperado pelos investidores.

Como é o seu modelo de negócio?…

Marketing Multinível

A Empresa pratica o Marketing Multinível, que é uma estratégia empresarial de marketing para alavancar um produto ou um serviço de uma empresa.

Funciona como um sistema de comissionamento em vários níveis de indicações.
Por exemplo:

Quando um vendedor vende um produto numa loja e ganha a comissão, ele está recebendo em um sistema unilevel (um nível). O Marketing Multinível paga os afiliados que desenvolvem o trabalho em vários níveis, ou seja, é como se o vendedor vendeu para João e João vendeu para José. Mas o vendedor recebeu comissão pela venda de João e José – nesse caso dois níveis.

O Problema é que há muitas empresas que se travestem de Marketing Multinível e praticam fraudes: a famosa Pirâmide Financeira.

Plano de Negócios Minerworld

Até antes dos problemas mais graves com o pagamento, a empresa prometia ganhos de 100% de retorno sobre o investimento, em 1 ano, em um contrato Paraguaio, além de todos os bônus provenientes do Marketing de Rede.

A questão é a sustentabilidade do negócio.

Para funcionar dentro do que é razoavelmente legal, todo o aporte financeiro de cada investidor, deve ser vinculado regularmente a uma máquina mineradora (no antigo contrato da empresa, que já não vale, mineradora de Bitcoin).

O problema é que em 2 anos de negócio, apesar de promessas aos afiliados, nunca foi apresentada uma nota fiscal de uma máquina, nenhum acompanhamento frequente de nenhum hash de potência de mineração, nenhuma posição oficial sobre o pool de mineração, nenhuma prestação de contas do negócio, nada…

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Muitos investidores insatisfeitos ainda reclamam do contrato que não pode ser reclamado ou contestado no Brasil e que o mesmo é um papel que nada vale.

Ano passado, segundo a própria empresa, o escritório da Miner no Paraguai foi investigado e os computadores levados e depois foram devolvidos sem problemas a mais.

Ainda em outubro do ano passado , a empresa publicou em suas redes sociais que estava apta a operar com investimentos financeiros no Paraguai. Porém, a CNV (Comissão Nacional de Valores) do Paraguai, na mesma semana, emite uma circular contestando o pronunciamento da Minerworld, afirmando que a empresa não está registrada e ainda alerta que operar no mercado financeiro sem a permissão da CNV fere a legislação do país com penas de prisão e multa. Leia a circular aqui.

Gestão Turbulenta e mais problemas…

Em outubro e dezembro de 2017, começaram os problemas de pagamento e a incoerência da gestão da empresa começa a saltar aos olhos dos investidores.

Primeiro, começam os atrasos nos saques (que eram semanais). Depois que o mesmo era pago, as regras começam a mudar.
Antes, o procedimento era que a empresa pagasse aos afiliados na cotação do dia da solicitação de saque – fato este, garantido no contrato antigo. Depois dos primeiros atrasos, a empresa decide, unilateralmente que faria os pagamentos na cotação atual do dia do pagamento.

O Bitcoin estava num caminho imparável de subida , onde chegou a cerca de $20mil dólares por unidade da moeda em 17 de dezembro de 2017. Nesse caminho, foi só crescimento e o pagamento na cotação do dia fazia com que os investidores recebessem menos que o contratado.

Logo após isso, os pagamentos foram cessados e foi anunciado o Miner360.
Em esquemas de pirâmide, essa prática é chamada de Restart, é quando se congela o pagamento dos investidores antigos e recomeça um sistema novo que, teoricamente, paga em dia.

Coincidência ou não, o Miner360 foi lançado, tentando vincular o hash de potência de mineração para cada novo investidor que entrasse. O mesmo recebe em até 48h do dia da solicitação de saque, incentivando os novos cadastros por conta dos afiliados que ainda desenvolviam a rede.

Em paralelo, todas as dezenas de milhares de investidores antigos ficam sem receber tudo aquilo que “contrataram”, sendo prometido depois alguns comunicados sobre um plano de quitação que iria quitar a dívida.

O Problema na Poloniex

Em dezembro, a diretoria da Miner diz em Convenção oficial em Campo Grande-MS que a empresa havia sofrido um ataque hacker em sua conta na Poloniex e que 1500 Bitcoins haviam sido congelados. Essa era a causa do problema financeiro e justificaram a rede que não tinham divulgado antes para evitar problemas com a mídia e com o próprio processo na Poloniex.

Tal processo nunca foi mostrado para empresa, nem as atas de reunião, nem evidências de viagem aos EUA, nem saldo das carteiras,… nada.

No final de março e início de abril de 2018, em uma tentativa frustrada de transparência, a empresa divulga dados dos seus ativos em um papel, sem nenhum vínculo de qualquer evidência de nenhum deles e os 1500 bitcoins viraram 851.

Em um comunicado anterior, a empresa divulga um laudo emitido por um engenheiro de computação da USP explicando sobre Ataque Phishing (uma forma de ataque hacker), dizendo que o laudo em estudo se referia ao caso da Minerworld.
Novamente, faltam dados que corrobore o fato, ainda faltam as mesmas evidências que a empresa insiste em não divulgar, novamente, com a justificativa de não prejudicar o processo com a Exchange.

No período não há indícios de nenhum ataque hacker na Poloniex e nenhuma menção nos canais especializados em criptomoedas, assim como não há nenhuma nota da Poloniex sobre o caso.

Ainda falando do Miner360, já para os novos e os antigos que reinvestiram no sistema novo, não há nenhum vínculo real com os tags das máquinas mineradores, como também não foram emitidas as NFs das mesmas.
No caso, mais uma promessa feita na convenção de dezembro que não foi cumprida.

Vale lembrar que a Poloniex é uma plataforma de trade de criptomoedas.
Serviço que a empresa não tem autorização para fazer.

No Brasil, a CVM não permite que empresas trabalhem com investimentos de terceiros no âmbito de criptomoedas.
E no Paraguai, a Minerworld não foi reconhecida pela CNV para trabalhar com investimentos.

Plano de Quitação

Os investidores antigos já estavam se sentindo lesados por primeiramente receber na cotação do dia, e depois por não receberem e aguardavam o Plano de Quitação da empresa (Enquanto isso o Miner360 funcionando e os novos cadastros acontecendo…)

Sai o plano de quitação com 3 opções de recebimento.

1 – 100% em Mcash (já vamos falar dela)
2 – 50% em Mcash e 50% em Bitcoins em 12 vezes
3 – 100% em Bitcoins em 24 vezes.

Vale lembrar que o contrato anterior (que foi rasgado conforme alguns investidores dizem) era a promessa do recebimento de 100% do valor investido em 1 ano, o que já coloca em cheque o Plano de Quitação imposto.

Uma observação importante é que o cálculo feito em cima do saldo dos investidores estão em sua maioria errados (pra menos).

A empresa diz que teve uma auditoria para fazer os cálculos e que iria contratar outra auditoria para consertá-los.
Nota: Nenhuma dessas auditorias foi divulgada.

Para quem escolhesse a opção 1 receberia em 1 semana e as opções 2 e 3 começariam a receber a primeira parcela entre os dia 16 e 23 de fevereiro de 2018. Isso se os documentos tivessem sido aprovados no MinerID.

Nesta etapa, mais um problema.
Muitas reprovações de documentos. Geralmente os mesmos documentos que as pessoas enviaram para o Bitofertas (A Exchange montada pelos donos da empresa) e que estavam aprovados lá.

Para as pessoas que foram aprovadas…
A maioria não recebeu a primeira parcela.

Em março,
A maioria não recebeu a segunda parcela do plano de quitação.

O investidor que tem nos enviado essas informações conta que não recebeu nenhuma parcela e que a maioria das pessoas que estavam com ele na empresa também não.

No começo de abril, um novo informativo com uma nova ideia de plano quitação para pagamento proporcional do valor que a empresa gera de rendimentos por mês, foi colocado.
Sendo que esses valores tanto de rendimentos mensais quanto de passivo não foram divulgados.

A Mcash

A moeda da empresa nasceu de uma última tentativa de resolver todos os problemas.

Segundo o CEO, ele estava viajando fora do país e aí veio uma inspiração sobre ela.
A ideia, apresentada aos investidores, é que ela seja uma moeda digital para o nicho do Marketing Multinível.

A moeda nasceu sem whitepaper (O Whitepaper é o documento preparado em antecipação ao lançamento de uma moeda – Ele detalha os pormenores comerciais, tecnológicos e financeiros de uma nova oferta de moeda e coloca em pedaços digeríveis para que o leitor possa entender. Simplificando, é tudo o que você precisa saber sobre a moeda antes de decidir se você deseja investir, comprar ou usá-la.)

É como se fosse a certidão de nascimento da moeda para uma análise inicial do investidor.
A Mcash nasceu sem ele.

Bem depois, no final de Março de 2018, a empresa fez a sua apresentação oficial para um grupo de pessoas da Minerworld em Zurique , na Suíça, emitindo um Whitepaper que os especialistas em criptomoedas consideram como incompleto: faltam dados importantes relacionados a explicação da Blockchain da moeda que é privada.

Nesta proposta, a emissão total de Mcash foi 1 bilhão de moedas onde:
– 40% vai para os bônus da rede dos investidores que fazem o mmn.
– 40% vai para a mineração da moeda – processo não especificado de como é feito
– 10% vai para os criadores
– 10% vai para o Business em novos investimentos

A questão é que dentro do sistema da moeda, no P2P, a mesma tem taxa ZERO de transação além de envio instantâneo – tal proeza que não foi conseguida por NENHUMA moeda digital do mercado.

O fato é que apesar de apresentado o Minerchain como a Blockchain da moeda, não dá para ter certeza que os processos são feitos dentro de uma Blockchain padrão, já que a mesma é privada e não explicada em seu whitepaper.
Por que taxa zero? Por que transações instantâneas? Como? Qual o protocolo? Os blocos foram minerados de quanto em quanto tempo? Quais as recompensa por blocos? Como foram minerados? etc…

Outra questão é que foi feito o Lançamento Oficial, mas a moeda não aparece listada no Coinmarketcap.com

Mais um fator de rebuliço está entre a divergência de preço sugerido e preço real da moeda.

o CEO da empresa lançou a mesma com o preço de $0,10 e disse que as pessoas lembrariam arrependidas desse valor.
Isso, em reais, na cotação atual, dá R$ 0,33 (trinta e três centavos de reais).

Acontece que antes mesmo do lançamento, a moeda era negociada no P2P entre os intregrantes da Minerworld a R$ 0,06, cerca de 18% do preço sugerido e aplicado oficialmente pela empresa.
Isso quer dizer que os investidores antigos que escolheram a forma do plano de quitação em mcash, já perderiam de cara, 82% do valor.

Mas não pára por aí.

Uma semana depois do lançamento em Zurique, a empresa lança a Exchange M360 só para negociar a Mcash, outro fator estranho aos investidores. Por que não colocar no Bitofertas já com o par Reais(R$) e Bitcoins(BTC) ?

Navegando dentro da Exchange, vemos que a plataforma não tem order book, tem apenas uma coluna de vendas com a opção de compra direta.

O curioso é que o menor preço no valor atual é de 0,00000223 btc (5 centavos de reais) e que há uma fila de 72 páginas com ordens de vendas, ou seja – As pessoas não compram!

Ainda tem mais um problema.

A Minerworld agora paga os bônus para quem ainda faz rede em mcash (lembrando que o contrato antigo foi rasgado), além de os novos cadastros serem obrigados, também a pagar, pelo menos 50% com mcash.
Porém, a cotação que a empresa cobra para isso é a cotação de preço sugerida: $0,10 (ou R$ 0,33) contra a realidade colocada em sua própria plataforma na M360.

Então, há um déficit de mais que 80% de perda para quem ainda acredita e tenta desenvolver um trabalho em Marketing de rede.

Conclusão

Os diretores insistem que estão fazendo todo o esforço possível e continuam trabalhando forte para a quitação de todas as dívidas da empresa e que não vão parar até conseguir.

O argumento deles e de alguns líderes que ainda trabalham em prol da Minerworld é:

“Os caras (diretores) estão aí dando a cara a tapa; se fosse golpe, eles teriam fugido!”

O problema é que esse é o único argumento que sobra mas que torna-se muito fraco diante de todos os problemas e todos os sinais que ficam que a empresa fez e continua fazendo todas as escolhas erradas possíveis em relação ao seu modelo de negócio.

Para a maioria dos investidores da empresa, aqueles mais antigos que investiram, trabalharam, construíram a empresa  e que agora aguardam amargurados um plano de quitação ilógico e incoerente, os gestores tinham uma ideia excelente nas mãos e estragaram todo um projeto por conta de ganância, postura inadequada e incompetência.

Muitos acham, inclusive, que os diretores e alguns dos top líderes que continuam os cadastros agiram e continuam agindo com má fé, no intuito de lesar e saírem ilesos do processo.
Acumulam-se reclamações no Reclame Aqui e há grupos nas redes sociais de ações coletivas dos ex miners contra a Minerworld.

Uma empresa que trabalha com um modelo de Marketing Multinível, para não ser considerada pirâmide, ela deve ter um produto ou serviço sustentável – no caso da Minerworld, teoricamente seria a Mineração de Bitcoins – e não depender de novos cadastros para a manutenção da saúde financeira da empresa.

O mínimo que deveria ser feito quando identificado o problema financeiro era cessar os novos cadastros e direcionar todo o rendimento da empresa para a quitação das dívidas. Esse poderia ser o início de uma resolução correta por parte da empresa.

Mas tudo são escolhas e parece que a Minerworld não tem sido muito feliz nas suas.