Taiwan usa TSMC em gesto diplomático a Trump

O presidente de Taiwan, Lai Ching-te, escolheu um presente incomum para Donald Trump em meio ao esforço para ampliar a cooperação em semicondutores com os Estados Unidos. Em 27 de maio, durante uma recepção alusiva ao Dia da Independência dos Estados Unidos em Taipé, Lai enviou a autobiografia em dois volumes de Morris Chang. O livro, escrito pelo fundador da TSMC, chegou a Trump por intermédio do diplomata norte-americano Raymond Greene.

Mais do que um gesto protocolar, a escolha carregou uma mensagem geopolítica clara. Afinal, Morris Chang, hoje com 94 anos, simboliza a liderança de Taiwan na fabricação de chips avançados. Assim, ao associar Donald Trump, Morris Chang e a TSMC no mesmo ato, o governo taiwanês reforçou sua indústria de semicondutores como ativo estratégico na relação com Washington.

Além disso, o episódio ocorreu em um momento no qual a disputa por capacidade industrial em chips se mistura com segurança econômica, comércio e política externa. Nesse sentido, a TSMC ocupa posição central. A empresa domina a produção de semicondutores de ponta usados em inteligência artificial, smartphones, data centers, defesa e eletrônicos avançados.

Parceria em chips ganha novo peso político

Morris Chang não apareceu apenas como autor do presente diplomático. Ele também participou da recepção em Taipé, o que ampliou o simbolismo do evento. Dessa forma, sua presença serviu como reafirmação pública da parceria entre Taiwan e Estados Unidos na cadeia global de chips.

Com efeito, a TSMC investe US$ 165 bilhões em instalações avançadas de manufatura no Arizona. O montante figura entre os maiores investimentos estrangeiros diretos da história dos Estados Unidos. Além disso, o objetivo é levar a produção de chips de ponta ao território norte-americano em escala relevante, uma prioridade que Washington tenta consolidar há anos.

A expansão nos Estados Unidos integra uma estratégia de capacidade global mais ampla da TSMC. Ao mesmo tempo, Taiwan preserva seu papel central na manufatura avançada. Por isso, o gesto de Lai Ching-te funcionou como lembrete de que a cooperação tecnológica entre os dois lados tem valor industrial e diplomático.

Livro de Morris Chang resume a força simbólica da TSMC

Morris Chang fundou a TSMC em 1987. A partir dali, ele ajudou a consolidar o modelo de foundry, no qual uma empresa fabrica chips desenhados por outras companhias. Em outras palavras, a companhia não precisava criar seus próprios semicondutores para se tornar indispensável à indústria global.

Esse modelo sustentou o ecossistema usado por gigantes como Apple, Nvidia, AMD e Qualcomm. Ademais, a dependência global da TSMC explica por que a empresa se tornou peça-chave nas discussões entre Taiwan, Estados Unidos e China.

Chips avançados viram moeda diplomática

O timing do gesto chama atenção, sobretudo pelo ambiente geopolítico mais tenso. Donald Trump teria se envolvido recentemente em discussões com o presidente chinês Xi Jinping sobre possíveis vendas de armas para Taiwan. Nessas conversas, Trump teria se referido a Taiwan como “moeda de troca” de negociação.

Nesse cenário, a posição da TSMC ganha ainda mais peso. Atualmente, a empresa produz chips no nó de 3 nanômetros e abaixo. Em contrapartida, nenhuma companhia norte-americana possui capacidade doméstica em escala comparável. A Intel tenta reduzir essa distância, mas a TSMC ainda mantém vantagem de vários anos em volume de produção e taxas de rendimento.

Por consequência, os semicondutores passaram a ter valor diplomático concreto. Não se trata apenas de tecnologia de ponta. Trata-se, acima de tudo, do controle sobre uma infraestrutura industrial crítica para inteligência artificial, defesa, computação em nuvem e eletrônicos de alto desempenho.

Disputa com a China amplia a relevância de Taiwan

A importância desse movimento também se conecta à corrida tecnológica com a China. Pequim investe pesadamente para desenvolver sua própria capacidade em semicondutores. Ainda assim, permanece várias gerações atrás da TSMC na fabricação de chips avançados. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos tentam retardar o avanço chinês com controles de exportação e fortalecer sua produção doméstica por meio do CHIPS Act.

Dessa maneira, a empresa taiwanesa deixou de atuar apenas como fabricante contratada aos olhos da política industrial ocidental. Ela passou ao centro da estratégia tecnológica e geopolítica. O gesto de Lai Ching-te reuniu em um único símbolo a autobiografia de Morris Chang, a presença do fundador da TSMC no evento, o investimento de US$ 165 bilhões no Arizona, a liderança em chips de 3 nanômetros e abaixo e o pano de fundo das conversas entre Donald Trump e Xi Jinping sobre Taiwan.