Token VEREM reacende alerta sobre RWA, lastro físico e riscos no mercado cripto

Entre promessa de esmeraldas, colapso de preço e lacunas jurídicas, caso expõe falhas recorrentes em projetos de tokenização

O mercado de criptoativos voltou ao centro de um debate sensível após a forte oscilação do token VEREM, apresentado como um Real World Asset (RWA) lastreado em esmeraldas. Em poucos dias, o ativo passou de uma valorização expressiva para uma queda abrupta, levantando questionamentos sobre lastro, governança, transparência e enquadramento regulatório no Brasil.

Mais do que analisar um projeto específico, o episódio reacendeu uma discussão estrutural. Afinal, quais critérios técnicos e jurídicos permitem diferenciar um RWA sólido de uma narrativa de alto risco? A resposta passa por métricas econômicas, auditorias independentes e clareza sobre direitos do investidor.

RWA não é equity: confusão conceitual amplia riscos

Antes de tudo, especialistas alertam para um erro recorrente. Um RWA lastreado em bem físico não pode ser analisado como equity. Enquanto ações representam participação em empresas com potencial de crescimento, RWAs físicos correspondem a frações de ativos finitos, como imóveis ou pedras preciosas.

Por isso, o valor econômico do token precisa manter relação direta com o bem subjacente. Quando o market cap ou o Fully Diluted Value (FDV) supera de forma significativa o valor estimado do lastro, a conta deixa de fechar. Nesse contexto, misturar lógica de crescimento empresarial com ativos físicos cria distorções graves de precificação.

FDV elevado acende sinal de alerta em RWAs físicos

Em projetos de tokenização de bens tangíveis, o FDV assume papel central. Diferentemente de tokens utilitários ou de governança, todos os tokens — circulantes ou não — representam o mesmo estoque físico. Assim, se o valor total projetado ultrapassa o patrimônio real custodiado, o investidor precisa de uma explicação econômica clara.

Sem essa justificativa, o risco de sobrepreço se torna evidente. No caso da VEREM, análises independentes apontaram que não há documentação pública capaz de comprovar, de forma verificável, o volume, a qualidade ou o valor das esmeraldas que supostamente lastreiam o token.

Segurança jurídica exige custódia, direito e governança

Outro ponto crítico envolve a chamada tríade da segurança jurídica. Para qualquer RWA, três perguntas precisam de resposta objetiva. Onde o bem está custodiado e quem auditou? O token concede direito à posse ou apenas participação financeira? O que ocorre juridicamente se a empresa emissora deixar de existir?

No caso analisado, especialistas identificaram ausência de laudos independentes, falta de clareza sobre direitos reais do token holder e silêncio sobre mecanismos de proteção em cenários extremos. Além disso, projetos que se autodenominam RWA, mas adotam narrativa semelhante à de equity, podem se enquadrar na legislação brasileira de valores mobiliários.

Segundo a Lei 6.385/76, ofertas públicas de ativos com características de valor mobiliário exigem autorização da CVM. Em tese, o descumprimento pode configurar crime financeiro, conforme a Lei 7.492/86, com penas que incluem reclusão e multa.

Colapso do preço amplia desconfiança do mercado

A desconfiança aumentou após movimentos extremos de preço. Em 22 de janeiro, a VEREM saltou de US$ 177 para US$ 397 em apenas 12 horas. Poucos dias depois, o ativo despencou para níveis próximos de US$ 46, acumulando desvalorização superior a 78%.

Nesse período, o token ganhou visibilidade após uma live do youtuber Augusto Backes, que afirmou possuir cerca de US$ 2 milhões investidos no projeto. Embora tenha negado vínculos formais com a equipe, o influenciador declarou acreditar no longo prazo do ativo e defendeu que investidores deveriam estudar antes de operar.

Ainda assim, muitos compradores relataram prejuízos expressivos. Paralelamente, o perfil brasileiro da VEREM anunciou que processaria críticos por supostos ataques caluniosos, o que elevou ainda mais a tensão.

Falhas de transparência e indícios técnicos preocupam analistas

Análises técnicas aprofundaram os alertas. Especialistas destacaram a inexistência de auditorias públicas, ausência de comprovação de custódia e informações incompletas sobre a equipe do projeto. Além disso, parcerias divulgadas com entidades internacionais não puderam ser confirmadas de forma independente.

No campo operacional, surgiram indícios de centralização excessiva, como vesting manual e controle concentrado da emissão. Também foram observados padrões atípicos de volume em exchanges, com microtransações simultâneas que sugerem simulação de liquidez.

A situação se agravou quando questionamentos feitos em canais oficiais resultaram em bloqueios imediatos, reduzindo a confiança na disposição do projeto em prestar esclarecimentos.

Caso reforça necessidade de critérios técnicos no mercado cripto

O episódio da VEREM evidencia riscos recorrentes no lançamento de novos tokens, especialmente aqueles que exploram narrativas de lastro físico. Em um mercado ainda em amadurecimento, marketing agressivo, promessas vagas e ausência de governança clara continuam sendo fatores de risco elevados.

Assim, mais do que julgar indivíduos ou projetos isolados, o caso reforça a importância de critérios técnicos rigorosos. Auditoria independente, transparência documental, coerência econômica e segurança jurídica não são opcionais. Sem esses pilares, qualquer ativo que se apresente como RWA permanece no campo da especulação — e não da tokenização responsável.