Tokenização muda fidelidade em hotéis e aviação

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Durante décadas, programas de milhas e pontos ajudaram companhias aéreas e redes hoteleiras a fidelizar clientes. No entanto, esse modelo mantém limitações como baixa transferibilidade, vencimentos e regras complexas de resgate. Nesse contexto, a tokenização das recompensas abre espaço para uma nova relação com os viajantes.

A integração entre blockchain e ferramentas da Web3 permite redesenhar a estrutura desses programas. Assim, empresas podem substituir pontos centralizados por unidades digitais de fidelidade e tokens não fungíveis, os NFTs. Ao mesmo tempo, a mudança oferece novas possibilidades operacionais e comerciais para o setor de turismo.

Modelo busca superar limites dos pontos tradicionais

Programas convencionais de milhas e pontos funcionam em bancos de dados fechados, controlados por cada empresa. Por isso, eles criam barreiras para viajantes e prestadores de serviços. Além disso, os benefícios acumulados costumam permanecer restritos ao ecossistema de uma única marca.

  • Ambientes isolados: viajantes geralmente não conseguem transferir pontos de hotéis para companhias aéreas ou serviços de transporte. Eles dependem de parceiros, intermediários e taxas específicas de conversão.
  • Desvalorização periódica: empresas podem alterar o valor dos pontos ou elevar a quantidade necessária para obter benefícios. Como resultado, as recompensas perdem poder de resgate.
  • Passivo financeiro: pontos emitidos e ainda não utilizados podem representar obrigações contábeis relevantes para companhias aéreas e redes hoteleiras.
  • Vencimento e fricção: parte dos pontos expira ou permanece sem uso devido a prazos, restrições de disponibilidade e regras complexas.

Unidades digitais ampliam a interoperabilidade

A conversão de milhas e pontos poderia transformar os programas por três mecanismos principais. Primeiro, as empresas poderiam representar recompensas com unidades fungíveis baseadas em padrões como o ERC-20 ou equivalentes de outras redes. Conforme o modelo adotado, usuários poderiam transferir, armazenar ou utilizar essas recompensas em diferentes serviços.

A criação dessas unidades digitais não exige negociação livre. Ainda assim, as empresas podem aplicar restrições por meio de contratos inteligentes, conforme suas políticas comerciais. Dessa maneira, cada companhia preserva o controle sobre circulação, transferência e resgate.

Em seguida, a interoperabilidade entre redes, também chamada de cross-chain, pode conectar diferentes ecossistemas. Protocolos específicos permitiriam trocas por outras representações digitais quando as regras autorizassem. Contudo, esse modelo acrescenta riscos técnicos relacionados a pontes e contratos inteligentes.

Por exemplo, um viajante poderia acumular recompensas de hospedagem emitidas na Polygon. Nesse caso, acordos entre fornecedores poderiam permitir benefícios em uma companhia aérea que utiliza outra rede. Dessa forma, contratos inteligentes automatizariam o processo e reduziriam conversões manuais.

NFTs podem registrar status e vantagens

O terceiro mecanismo envolve categorias de fidelidade como Gold, Platinum e VIP. Por sua vez, NFTs poderiam representar status, acesso a salas VIP, café da manhã gratuito e late check-out. Portanto, cada empresa programaria os benefícios e as respectivas condições de uso.

  • Transferibilidade controlada: uma empresa poderia autorizar a transferência, o aluguel ou o compartilhamento de vantagens associadas a um NFT. A política comercial e as restrições regulatórias definiriam os limites.
  • Benefícios dinâmicos: os metadados poderiam mudar conforme a atividade, o tempo de relacionamento ou as conquistas do viajante. Desse modo, as vantagens evoluiriam de acordo com o uso.

Esse formato também permitiria diferenciar benefícios permanentes de vantagens temporárias. Ao mesmo tempo, as companhias manteriam regras específicas para preservar a exclusividade de determinadas categorias. O desenho do programa, portanto, continuaria sob responsabilidade da empresa emissora.

Adoção depende de experiência e regras claras

Apesar dessas possibilidades, programas de fidelidade baseados em Web3 enfrentam obstáculos operacionais, tecnológicos e regulatórios. A experiência do usuário permanece entre os principais desafios. Nesse ponto, o gerenciamento de chaves privadas e o pagamento de taxas de rede podem dificultar a adoção.

Soluções como abstração de conta, carteiras inteligentes e transações patrocinadas podem reduzir essa complexidade. Com isso, viajantes não precisariam lidar diretamente com todas as etapas técnicas. As empresas, porém, teriam de oferecer interfaces simples e mecanismos adequados de segurança.

Transformar pontos em unidades transferíveis ou negociáveis também pode gerar obrigações fiscais e regulatórias em algumas jurisdições. Além do mais, companhias aéreas e redes hoteleiras precisam definir quais vantagens poderão circular. Caso contrário, mercados secundários podem afetar exclusividade, posicionamento e disponibilidade de serviços premium.

Em linhas gerais, a fidelidade na aviação e na hotelaria pode avançar para modelos com mais controle e flexibilidade. Sob esse modelo, unidades fungíveis, NFTs de utilidade e interoperabilidade substituiriam sistemas isolados por ecossistemas programáveis. Assim, as recompensas poderiam atender uma nova geração de viajantes digitais sem eliminar as regras comerciais das empresas.

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