Trump adia sanção de projeto anti-CBDC até 2030

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cancelou na quarta-feira a cerimônia de assinatura de um projeto habitacional que inclui uma proibição temporária de uma CBDC emitida pelo Federal Reserve até 31 de dezembro de 2030. Com isso, ele adiou a transformação em lei federal de uma medida que formalizaria sua oposição ao dólar digital.

Ao longo de seu segundo mandato, Trump repetiu que uma moeda digital de banco central emitida pelo Federal Reserve representa risco à privacidade financeira. Além disso, em janeiro de 2025, ele já havia proibido agências federais de estabelecer, emitir ou promover uma CBDC nos Estados Unidos.

No entanto, a recusa em assinar o pacote não indica mudança de posição sobre o tema. Trump decidiu usar o projeto, chamado 21st Century ROAD to Housing Act, como instrumento de pressão para que o Congresso aprove o SAVE America Act. A proposta eleitoral exige identificação do eleitor e prova documental de cidadania.

“A coletiva de imprensa e a assinatura do projeto habitacional de hoje estão canceladas até que aprovemos o urgentemente necessário SAVE AMERICA ACT, que considero uma emergência nacional.”

Donald Trump na Truth Social

Ademais, o cancelamento ocorreu poucas horas antes de Trump seguir ao Capitólio. A decisão surpreendeu parlamentares, porque o projeto havia sido aprovado por 85 votos a 5 no Senado, na segunda-feira, e por 358 a 32 na Câmara, na terça-feira.

Bloqueio ao dólar digital entrou no pacote habitacional

Restrição ao Federal Reserve virou centro do impasse

O ROAD to Housing Act foi concebido para ampliar a oferta de moradias, reduzir barreiras regulatórias à construção e expandir o acesso ao financiamento imobiliário. Contudo, na parte final do texto, os congressistas incluíram uma restrição sem relação direta com habitação: a limitação da capacidade do Federal Reserve de criar um dólar digital.

Na prática, o dispositivo impediria o banco central dos Estados Unidos de emitir ou criar uma CBDC, de forma direta ou por intermédio de instituições financeiras, até o fim de 2030. Além disso, o texto determina que o Federal Reserve não poderá lançar um ativo digital substancialmente semelhante sem autorização expressa do Congresso.

Uma CBDC seria um passivo digital do Federal Reserve disponibilizado ao público. Em contrapartida, stablecoins privadas como USDT, da Tether, e USDC, da Circle, são emitidas por empresas e normalmente lastreadas em caixa, títulos do Tesouro e outros ativos de reserva.

Assim, a proibição prevista no projeto se concentra no dinheiro digital emitido por banco central. Ela não vetaria stablecoins privadas nem outros ativos digitais em dólar, abertos e sem permissão, que preservem proteções associadas ao dinheiro físico.

O Federal Reserve ainda não decidiu criar uma CBDC. Segundo a própria instituição, qualquer avanço dependeria de autorização do Congresso e do Poder Executivo. Ainda assim, a simples possibilidade provoca resistência contínua entre legisladores republicanos e grupos ligados ao mercado de criptomoedas.

A ordem executiva assinada por Trump em janeiro de 2025 bloqueou iniciativas federais para estabelecer ou promover uma moeda digital oficial. No entanto, a medida não proibiu toda forma de pesquisa técnica ou acadêmica sobre moedas digitais.

Casa Branca muda o discurso e amplia a incerteza

Assinatura foi tratada como vitória antes do recuo

Como um futuro presidente poderia revogar ou alterar essa ordem, defensores do setor vinham pressionando o Congresso para transformar a proibição em lei federal. Por isso, a decisão de Trump adia uma proteção legislativa mais duradoura para uma política que ele próprio já apoia.

Mais cedo, a secretária de imprensa Karoline Leavitt havia tratado a esperada assinatura como prova de que Trump estaria cumprindo promessas de campanha. Segundo ela, o projeto ajudaria a reduzir custos de moradia e tornaria a compra da casa própria mais acessível.

Horas depois, porém, Trump minimizou a importância da medida. Ele afirmou que o tema era de “menor importância” quando comparado a juros mais baixos e a outras prioridades do Congresso. Além disso, criticou o envolvimento da senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts e integrante de destaque do Comitê Bancário do Senado, nas negociações da proposta.

Questionado sobre um possível veto, Trump não respondeu diretamente. Em vez disso, disse a repórteres:

“Olha, eu ganhei bilhões de dólares com habitação. Eu conheço habitação melhor do que qualquer pessoa, talvez em qualquer lugar. Tudo gira em torno da taxa de juros. Também não quero prejudicar as pessoas que têm casas.”

Aaron Rupar no X

Parlamentares dos dois partidos vinham promovendo o pacote como um dos esforços federais mais relevantes em habitação nas últimas décadas. Entretanto, após a decisão de Trump, democratas criticaram o presidente por atrelar as medidas a uma disputa eleitoral sem relação direta com moradia.

Elizabeth Warren afirmou que “nós vamos aprovar este projeto”.

Senate Democrats no X

Do mesmo modo, o senador Mark Warner, da Virgínia, escreveu que Trump mudou de posição quando se preparava para sancionar uma das mais importantes medidas bipartidárias de habitação dos últimos anos. Segundo ele, a decisão deixou os americanos sem alívio para aluguéis e custos de hipoteca em alta.

Mark Warner no X

SAVE America Act travou a sanção presidencial

Prazo constitucional ainda mantém proposta viva

Trump condicionou seu apoio ao projeto habitacional à aprovação do SAVE America Act. A proposta imporia novas exigências nacionais de identificação e documentação de cidadania para eleições federais. Entre elas, estão prova documental de cidadania americana no registro eleitoral, identificação com foto no momento do voto e regras adicionais para parte dos eleitores ausentes.

A Câmara aprovou esse projeto em fevereiro por 218 votos a 213, com um democrata se unindo aos republicanos. Desde então, a proposta está travada no Senado, onde os líderes republicanos não dispõem dos 60 votos normalmente necessários para superar obstruções regimentais.

Além disso, a legislação federal já proíbe que não cidadãos votem em eleições federais. O Bipartisan Policy Center afirmou que casos confirmados de registro e voto por não cidadãos são raros, embora reconheça a legitimidade de garantir que apenas cidadãos elegíveis participem das eleições.

O mesmo grupo alertou que muitos cidadãos aptos não têm acesso imediato aos documentos exigidos pela proposta. Por outro lado, republicanos argumentam que as exigências reforçariam a segurança eleitoral e a confiança pública.

Por fim, o cancelamento da cerimônia não encerra automaticamente o projeto habitacional nem a cláusula sobre CBDC. Pela Constituição dos Estados Unidos, o presidente tem 10 dias, excluindo domingos, para assinar ou vetar uma legislação depois que ela é formalmente apresentada.

Segundo o relato do caso, o pacote ainda não havia sido formalmente enviado à Casa Branca quando Trump cancelou o evento. Nesse sentido, a contagem constitucional ainda não começou. Mike Johnson, presidente da Câmara, teria dito após conversar com Trump que ainda espera a assinatura da legislação dentro do prazo disponível.

Quando o projeto for oficialmente apresentado, Trump poderá assiná-lo, vetá-lo ou não agir. Se ele não o devolver em 10 dias e o Congresso continuar apto a receber um veto, o texto vira lei sem assinatura presidencial. Ainda assim, um veto formal abriria nova disputa política, embora as votações originais tenham superado com folga os dois terços exigidos para uma derrubada.

Para o mercado de criptomoedas, o efeito imediato é de atraso, não de derrota política. Afinal, Trump não passou a apoiar um dólar digital. Ao mesmo tempo, o Federal Reserve segue sem um plano ativo para emitir essa moeda, enquanto o Congresso tenta transformar a barreira atual em lei até 2030.