Trump atrela acordo com Irã ao reconhecimento de Israel

Donald Trump vinculou duas das pautas mais sensíveis do Oriente Médio em uma mesma proposta diplomática. Em publicação feita na Truth Social em 25 de maio, o presidente dos Estados Unidos defendeu que Arábia Saudita, Qatar e outros países de maioria muçulmana reconheçam formalmente Israel por meio da adesão aos Acordos de Abraão. Além disso, tratou essa etapa como condição obrigatória para qualquer entendimento que surja das negociações em andamento com o Irã.

Na mensagem, Donald Trump afirmou que o reconhecimento seria “obrigatório”. Assim, a declaração indica uma tentativa de usar o avanço das conversas com Teerã como alavanca diplomática. Em outras palavras, Washington buscaria ampliar a normalização entre Israel e países árabes e muçulmanos enquanto tenta construir um arranjo com o Irã.

Pressão regional ganha novo formato

Dois dias antes da manifestação pública, em 23 de maio, Donald Trump participou de uma teleconferência com líderes de oito países. Estavam na conversa Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Paquistão, Turquia, Egito e Jordânia. Segundo o presidente norte-americano, o tema principal foi o Irã, e as negociações avançavam de forma favorável.

Na prática, a estratégia condiciona um possível acordo relacionado ao Irã à expansão dos Acordos de Abraão. Esses pactos de normalização entre Israel e nações árabes surgiram durante o primeiro mandato de Donald Trump. Desde então, o tema ocupa posição relevante na diplomacia regional, sobretudo por envolver segurança, influência iraniana e reposicionamento político no Oriente Médio.

Em 2020, os Acordos de Abraão levaram Emirados Árabes Unidos e Bahrein a estabelecer relações diplomáticas formais com Israel. Posteriormente, Sudão e Marrocos também aderiram. Ainda assim, a Arábia Saudita permanece como a principal ausência nesse arranjo, já que é a maior economia do mundo árabe e guardiã dos dois locais mais sagrados do islã.

Arábia Saudita, Qatar e Paquistão resistem

Até o momento, porém, Arábia Saudita e Qatar não demonstraram disposição para aceitar a proposta nos termos defendidos por Donald Trump. Ambos sustentam que qualquer normalização com Israel depende de um “caminho irreversível” para a criação de um Estado palestino. Portanto, a exigência central segue vinculada à questão palestina, e não apenas ao cálculo estratégico contra o Irã.

O Paquistão adotou postura ainda mais rígida. Islamabad rejeitou publicamente a proposta de normalização com Israel e deixou claro que não pretende aderir a esse movimento no cenário atual. Dessa forma, a articulação imaginada por Trump enfrenta barreiras políticas relevantes entre países que participaram das conversas recentes.

Nos Estados Unidos, a iniciativa recebeu apoio do senador Lindsey Graham, que classificou a proposta como “simplesmente brilhante”. No entanto, até 25 de maio, Israel ainda não havia apresentado resposta pública à pressão feita pelo presidente norte-americano. Esse silêncio amplia a incerteza em uma equação que já envolve interesses divergentes e temas altamente sensíveis.

Acordos de Abraão voltam à mesa diplomática

Os Acordos de Abraão marcaram o principal resultado da política externa de Donald Trump em seu primeiro mandato. Afinal, eles romperam com décadas de consenso no mundo árabe, segundo o qual a normalização com Israel só deveria ocorrer após uma solução para o conflito palestino.

No caso dos Emirados Árabes Unidos e do Bahrein, prevaleceu a avaliação de que interesses estratégicos imediatos pesavam mais. Entre esses fatores estavam, sobretudo, o enfrentamento da influência do Irã e o acesso à tecnologia israelense. Assim, os acordos passaram a representar uma mudança concreta na lógica diplomática da região.

Ao conectar novamente Israel ao debate regional dentro das tratativas com o Irã, Donald Trump cria um modelo de pressão simultânea sobre vários países. Com efeito, a lógica da negociação reúne diferentes temas sensíveis em um só pacote. Como resultado, aumenta o custo político de abandonar apenas uma parte do arranjo.

Ofensiva diplomática ainda enfrenta obstáculos

Essa engenharia diplomática, contudo, esbarra nas posições já conhecidas de Arábia Saudita, Qatar e Paquistão. Enquanto Donald Trump descreve o reconhecimento de Israel como etapa obrigatória para um acordo mais amplo com o Irã, esses países vinculam qualquer mudança de postura à questão palestina ou, no caso paquistanês, rejeitam a ideia de forma aberta.

Até 25 de maio, o quadro reunia os elementos centrais da disputa. Havia a teleconferência de 23 de maio com oito países, a defesa pública feita por Trump em 25 de maio, a tentativa de expandir os Acordos de Abraão, a exigência saudita e do Qatar de um caminho irreversível para um Estado palestino, a rejeição do Paquistão e a ausência de resposta pública de Israel.

No balanço diplomático, a proposta de Donald Trump recoloca a normalização com Israel como peça de barganha em uma negociação regional mais ampla. Ainda assim, a resistência de atores centrais mostra que o movimento enfrenta obstáculos profundos, mesmo com apoio político dentro dos Estados Unidos.