Visa leva cartões com stablecoin a mais de 160 programas
A Visa informou, em 8 de setembro, que mais de 160 programas de cartões ligados a stablecoin operavam globalmente no segundo trimestre fiscal de 2026. Além disso, o volume de pagamentos dessas iniciativas avançou quase 200% em relação ao mesmo período do ano anterior. A empresa também apontou que sua liquidação em stablecoins superou a taxa anualizada de US$ 20 bilhões. O indicador representa um crescimento superior a 15 vezes na comparação anual.
Contudo, a taxa anualizada projeta a atividade recente para 12 meses. Portanto, o dado não significa que a Visa já tenha liquidado US$ 20 bilhões em 2026. A própria Visa e a Credit Coop divulgaram os números. Até o momento, nenhuma das empresas apresentou uma auditoria independente dessas informações.
Programas de cartões com stablecoin ganham escala
Os cartões vinculados a stablecoin conectam a carteira digital ou a conta do usuário à rede de estabelecimentos da Visa. Desse modo, os recursos financiam a transação ou passam por conversão durante o pagamento. Enquanto isso, o lojista recebe pela infraestrutura tradicional de cartões. A Visa não detalhou o volume financeiro absoluto, a divisão regional ou o número de transações desses programas.
Em junho, a companhia informou que mais de 160 programas estavam ativos ou em desenvolvimento. Naquele momento, a taxa anualizada de liquidação em stablecoins havia alcançado US$ 7 bilhões em março. Assim, o novo patamar de US$ 20 bilhões indica que a taxa quase triplicou desde então. Ainda assim, os dois indicadores dependem de períodos de referência e metodologias comparáveis.
Pagamentos e liquidações medem processos diferentes
O volume de pagamentos com cartões e o volume de liquidação representam etapas distintas. Enquanto o primeiro considera compras iniciadas pelos titulares, o segundo abrange transferências entre a Visa, instituições financeiras e operadores. Por sua vez, a liquidação permite que as partes cumpram as obrigações financeiras geradas pelas transações. A empresa já testou esse processo em diferentes regiões, blockchains e unidades digitais.
Nesse contexto, a parceria com a Credit Coop busca atender à necessidade de capital de giro dos programas. Esses operadores precisam financiar obrigações diárias de liquidação antes de receber todos os pagamentos dos portadores. Para carteiras menores, linhas tradicionais podem se tornar inviáveis devido aos custos jurídicos e administrativos. A estrutura tenta reduzir essa barreira por meio de financiamento baseado em stablecoins.
Credit Coop financia obrigações diárias
A operação utiliza uma linha de crédito rotativa com garantia de recebíveis de liquidação. Dessa maneira, os tomadores sacam recursos para cumprir as obrigações diárias com a Visa. Depois, eles pagam a linha conforme os valores dos usuários chegam. Os recebíveis passam pelo contrato inteligente Spigot, desenvolvido pela Credit Coop.
Na prática, o contrato direciona parte dos recursos ao principal e aos juros antes de liberar o saldo para a conta operacional. O processo funciona de forma semelhante a uma conta bancária controlada, mas usa contratos inteligentes e registros públicos. A Visa recebe os arquivos diários de liquidação por uma conexão segura de dados. Com isso, as decisões de crédito podem considerar informações da Visa e o histórico onchain.
Segundo a empresa, o acesso aos dados reduziu os custos de empréstimos em até 30% para alguns programas participantes. Porém, a Visa não informou as taxas individuais nem identificou todos os clientes beneficiados. A redução também pode variar conforme o perfil de risco e as condições de cada operação. Dessa forma, o percentual não representa uma economia uniforme para todos os programas.
Rain concentra a maior parte do financiamento
A Rain, membro principal da Visa, oferece infraestrutura para cartões com stablecoins. A empresa utiliza uma linha rotativa da Credit Coop desde agosto de 2023. Posteriormente, os pagamentos dos portadores passam pelos contratos inteligentes, que cobrem juros e recompõem a linha. A facilidade financia as exigências diárias de liquidação da companhia.
A Visa declarou que a estrutura financiou todas as obrigações de liquidação dentro do prazo. Já a Credit Coop reportou mais de US$ 2,5 bilhões em financiamentos acumulados desde 2023. O total inclui mais de 3 mil eventos de empréstimo e 9 mil eventos de pagamento. A companhia também declarou não ter registrado inadimplência na plataforma, embora não tenha apresentado auditoria independente.
A Rain respondeu por cerca de US$ 2 bilhões desse financiamento acumulado. De acordo com a Visa, a operação registrou mais de 2 mil empréstimos e 7 mil pagamentos. Esses eventos geraram ao menos US$ 1,58 milhão em juros. A empresa também afirmou que liquida obrigações de cartões Visa em USDC durante todos os dias da semana, inclusive feriados.
Novos emissores testam o modelo de crédito
A Karta, cartão Visa premium que a Rain emite nos Estados Unidos, também começou com o financiamento da Credit Coop. Em junho de 2026, a Karta anunciou um pacote de US$ 140 milhões. O acordo incluiu uma Série A de US$ 15 milhões, liderada pela Galaxy Ventures. A Community Investment Management forneceu ainda uma linha institucional de US$ 125 milhões.
A Visa apresentou a Karta como exemplo de programa que migrou de uma linha menor para financiamento institucional. Nesse caso, o histórico diário de liquidações ajudou a formar o registro analisado por credores maiores. Em paralelo, Moto e Xplace usam o financiamento da Credit Coop na infraestrutura emissora da Rain. A Visa, entretanto, não divulgou valores ou volumes dessas operações.
A iniciativa acrescenta uma camada de crédito à estratégia da Visa para finanças digitais. Em março, Visa e Bridge, empresa que pertence à Stripe, informaram que seus programas operavam em 18 países. As companhias planejavam alcançar mais de 100 mercados até o fim de 2026. A Bridge permite o uso dos cartões em plataformas como Phantom e MetaMask e em mais de 175 milhões de estabelecimentos.
Visa prepara liberação de recursos sob demanda
Agora, Visa e Credit Coop trabalham em um modelo de financiamento just-in-time. Nele, o arquivo diário de liquidação acionaria uma liberação em stablecoins no valor líquido devido. Os recursos seguiriam diretamente ao endereço de liquidação relevante da Visa. Assim, os programas evitariam sacar toda a linha antecipadamente.
O modelo também reduziria o capital ocioso entre os ciclos de pagamento. Ao mesmo tempo, a Visa estima que o período de empréstimo poderia cair de dias para horas. Os credores, por outro lado, conseguiriam alinhar sua exposição às obrigações diárias efetivas. A companhia não informou quando pretende oferecer o sistema aos mais de 160 programas.
Estrutura ainda enfrenta riscos operacionais
O plano depende de dados corretos, contratos inteligentes confiáveis e liquidez suficiente em stablecoins. Falhas operacionais podem impedir o cumprimento dos prazos mesmo quando a linha possui recursos disponíveis. Além do mais, a Visa não revelou quais blockchains ou stablecoins as futuras estruturas poderão suportar. A empresa também não apresentou um cronograma detalhado para a expansão.
Apesar disso, as companhias pretendem ampliar o modelo para outros emissores. Elas também avaliarão se os registros onchain podem sustentar linhas institucionais maiores. O histórico sem inadimplência da Credit Coop não garante resultados futuros. Desvalorização das stablecoins, vulnerabilidades em contratos, falhas dos tomadores e mudanças regulatórias continuam entre os principais riscos.