VVV: aporte de US$ 65 mi expõe dilema na Venice

A Venice, plataforma de inteligência artificial associada ao token VVV, levantou US$ 65 milhões em uma rodada Série A liderada pela Dragonfly. Além disso, a operação avaliou a empresa em US$ 1 bilhão. Embora tenha sido a primeira captação externa da companhia, a estrutura chamou atenção porque o financiamento ocorreu por participação acionária, e não pelo uso direto do token.

O pacote entregue aos investidores incluiu 8,98% de participação societária, 1,5 milhão de VVV com vesting e warrants para comprar mais 5 milhões de VVV ao longo de oito anos. Ademais, Dragonfly, Coinbase Ventures e North Island Ventures participaram da rodada. Assim, esses investidores passaram a ter exposição simultânea às ações da Venice e ao token VVV.

Estrutura da rodada coloca o VVV no centro do debate

A principal discussão entre investidores e usuários envolve quanto do crescimento da Venice chegará, de fato, ao VVV. Pela estrutura atual, os acionistas possuem direitos legais sobre a Venice AI. Em contrapartida, os detentores do token mantêm uma exposição econômica baseada em staking, emissão de DIEM e no mecanismo de recompra e queima.

Na página oficial do VVV, a Venice define o ativo como um bem de capital deflacionário de longo prazo da plataforma. Nesse sentido, a proposta da empresa prevê um ciclo em que a receita operacional seria usada para recomprar e queimar tokens VVV, reduzindo a oferta e ampliando a escassez ao longo do tempo.

Além disso, o staking de VVV permite emitir DIEM, um crédito equivalente a US$ 1 em acesso computacional da Venice, renovado diariamente. Em publicação no X, Erik Voorhees descreveu a operação como “VVV e capital”. Ele também afirmou que a empresa escolheu financiar a expansão com equity, preservando intocada sua tesouraria em tokens.

Segundo Voorhees, a Venice continua como a maior detentora de VVV, com mais de 30 milhões de tokens em uma oferta superior a 80 milhões. Ele também afirmou que nem a empresa nem sua equipe venderam VVV, apesar da valorização registrada pelo ativo em 2026.

Separação entre ações e token gera críticas

Nem todos avaliaram a estrutura de forma positiva. Dankrad Feist publicou uma análise cética no X e argumentou que a separação entre equity e token no acordo é desfavorável para os detentores de VVV. Segundo ele, os acionistas contam com proteções legais e contratuais. Enquanto isso, os holders do token dependem da continuidade do programa de recompra e queima.

A crítica ganhou força porque a própria Venice promove o VVV como o ativo de capital da plataforma. Por isso, parte do mercado espera uma ligação mais direta entre o crescimento operacional da empresa e o valor do token. Em termos práticos, os acionistas possuem uma reivindicação jurídica sobre a Venice AI. Já os detentores de VVV seguem uma tese econômica baseada em incentivos de uso e escassez programada.

Ao mesmo tempo, os dois lados concordam em um ponto: a Venice já opera como um negócio real, com receita real e expansão em curso. Contudo, o desacordo permanece em qual camada captura esse crescimento com mais eficiência.

O plano da empresa é usar o novo capital para construir infraestrutura própria de computação, incluindo seu primeiro data center. Dessa forma, a Venice pretende reduzir a dependência de GPUs alugadas. Segundo Voorhees, a melhora de margem pode abrir espaço para queimas maiores de VVV, já que margens melhores ampliariam a receita e, por consequência, o potencial de recompra.

Valuation, diluição e cenários para o token

A avaliação de US$ 1 bilhão implica um múltiplo de cerca de 14,3 vezes a receita anual reportada pela Venice. Enquanto isso, o VVV era negociado perto de US$ 13,55, o que colocava seu valor de mercado em aproximadamente US$ 637 milhões. Além disso, seu valor totalmente diluído alcançava cerca de US$ 1,54 bilhão, equivalentes a 9,1 vezes e 22,1 vezes a receita, respectivamente.

Outro ponto central envolve a ausência de divulgação sobre qual percentual da receita será destinado às queimas. Pelos cálculos citados na análise original, se 5% da receita anual fosse usado nesse processo, a Venice retiraria cerca de 258 mil VVV por ano aos preços atuais. Em seguida, esse volume subiria para 517 mil e 1,03 milhão de tokens em cenários de 10% e 20% da receita.

O pacote entregue aos investidores soma 6,5 milhões de VVV entre concessões e warrants, com trava de um ano e vesting por três anos. Segundo Voorhees, se os warrants forem totalmente exercidos, menos de 6 mil VVV por dia entrariam em circulação quando os desbloqueios começarem. Portanto, isso representaria algo próximo de 2,19 milhões de VVV por ano no limite superior.

Projeções do Goldman Sachs indicam US$ 765 bilhões em gastos de capital com inteligência artificial em 2026, com avanço para US$ 1,6 trilhão até 2031. Nesse contexto, empresas que controlam infraestrutura costumam ter vantagem sobre aquelas que apenas alugam capacidade computacional. Assim, a decisão da Venice de captar recursos via ações para investir em GPUs e em um data center próprio ganha lógica adicional.

Comparação entre potenciais queimas anuais de VVV e ritmo de desbloqueio dos warrants
Gráfico compara potenciais queimas anuais de VVV em cenários de 5%, 10% e 20% da receita com o ritmo máximo de desbloqueio de 2,19 milhões de VVV por ano dos warrants.

Crescimento da Venice pode não chegar ao VVV

No cenário mais otimista, a Venice converte rapidamente o capital captado em infraestrutura própria, melhora margens em um ou dois anos e mantém o crescimento da receita acima do ritmo anual atual, perto de US$ 70 milhões. Nesse caso, o volume de recompra e queima poderia superar a diluição ligada ao pacote da Série A.

Em um cenário intermediário, a empresa continua crescendo, mas o VVV permanece principalmente como um ativo de acesso, vinculado a staking, DIEM e queimas. Ou seja, o token não funcionaria como reflexo direto do valor corporativo da Venice AI.

Por outro lado, no cenário negativo, o valor da empresa avança mais rápido que o valor do token. Se as queimas permanecerem modestas diante de um valor totalmente diluído de US$ 1,54 bilhão e os warrants forem liberados como previsto, o mercado pode passar a precificar o VVV mais como um ativo utilitário do que como uma representação ampla do crescimento da companhia.

Em suma, a rodada da Venice expôs uma questão recorrente no mercado de criptomoedas. Quando uma empresa possui receita, token público e participação acionária privada, o crescimento nem sempre beneficia ambos os lados da mesma forma. No caso da Venice, a captação de US$ 65 milhões, a tesouraria superior a 30 milhões de VVV, os 6,5 milhões de tokens ligados ao pacote dos investidores e a estratégia de recompras e queimas sustentam o debate sobre quanto do avanço da empresa será refletido no VVV.